o nascimento de nossa capital
A aventura da construção de Brasília, de Dom Bosco a Juscelino Kubitschek

 ano 1  -  n.1  -   jan./jun. 2003 

por Daniel Perdigão

Embrapa Monitoramento por Satélite
Foto de satélite do Plano Piloto, com destaque dos eixos

No dia 12 de setembro de 2002, comemoramos o centenário de nascimento de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o JK, um dos mais lembrados presidentes do Brasil. Em seu governo, foi construída nossa nova capital, Brasília. Entretanto, apesar de JK ser o fundador da cidade, ele não foi o primeiro a ter a idéia de transferir o centro administrativo brasileiro do litoral para o interior.

Ainda no século 18 começaram as discussões mudancistas. Salvador já não servia de sede do governo de um território cujo eixo econômico se deslocara para o sul, com a expansão da atividade mineradora. Assim, em 1763, o Marquês de Pombal, ministro português, transferiu a capital para o Rio de Janeiro.

Mas o debate continuou. O Rio de Janeiro, como cidade litorânea, estava exposto a ataques navais, além de ser excessivamente povoado e desorganizado. Em 1823, José Bonifácio, ministro de Dom Pedro I, encaminhou representação à primeira Assembléia Constituinte sugerindo a região de Paracatu, oeste de Minas Gerais, como sítio ideal para uma nova capital. Esse documento também foi o primeiro a denominá-la Brasília.

Durante o século 19 inúmeros intelectuais abordaram a questão da mudança, mas o fato mais curioso desse período foi a revelação de uma das várias profecias de Dom Bosco, religioso italiano, fundador da Ordem dos Salesianos. Ele previu uma grande depressão que se formaria a partir de um lago, entre os paralelos 15° e 20°. Uma voz teria dito a ele: "quando vierem escavar as minas ocultas, no meio destas montanhas, surgirá aqui a terra prometida". Brasília seria a realização dessa profecia, por estar às margens de um lago e cercada por uma serra. Dom Bosco só não anteviu que a capital federal seria construída à mesma longitude de São Carlos. Um meridiano que cruze a Esplanada dos Ministérios, leste de Brasília, cruza também a Vila Nery, bairro da zona leste de São Carlos.

A Constituição de 1891 fixou um quadrilátero de 14400 km², no Planalto Central, para a localização da capital. A recém-emancipada cidade de Mestre d'Armas, futura Planaltina, animou-se com a chegada do astrônomo Luiz Cruls e sua equipe, no ano seguinte, para demarcar a área. No entanto, apenas três décadas depois outro passo foi dado, com o lançamento, na mesma Planaltina, da pedra fundamental da construção.

Pequeno Atlas do Brasil, Rio de Janeiro, 1922
Mapa da década de 1910 mostrando o Quadrilátero Cruls: Altamir é a atual Planaltina e Campinas tornou-se bairro de Goiânia.

As Constituições de 1934 e 1946 também determinavam procedimentos para a mudança da capital, com o objetivo de povoar o interior, mas apenas em 1955 o presidente Café Filho ratificou a escolha de um dos cinco locais sugeridos na região do quadrilátero Cruls. No mesmo ano, JK prometeu a construção da capital no Planalto Central, como mandava a Constituição, durante campanha eleitoral naquela região.

Em 1956, JK, já presidente, iniciou a construção do Palácio da Alvorada, residência presidencial, bem como a do Brasília Palace Hotel. Ele criou também a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), que ficou responsável pelo projeto da cidade e sua realização. O desejo de JK de fundar Brasília era tão grande que ele colocou Israel Pinheiro, aliado político de longa data, como presidente da Novacap, e Oscar Niemeyer, arquiteto responsável pela urbanização da Lagoa da Pampulha, realizada durante a gestão JK na prefeitura de Belo Horizonte, como diretor de arquitetura da companhia. Para isso, cedeu um terço dos cargos da Novacap à UDN, principal partido de oposição à época.

O edital do concurso do Plano Piloto, o projeto de traçado básico da cidade, foi publicado dias depois. Dos 41 planos apresentados, venceu o do urbanista Lúcio Costa. Tendo em mente a importância do projeto, ele não só enfocou os aspectos vitais de uma cidade comum, mas fez questão de incorporar soluções que evocam a monumentalidade de uma cidade que já nasceria como capital de um país, como reconhece no relatório apresentado. Sua idéia inicial "nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz". Um dos eixos é arqueado, por questões topográficas, e ao longo dele estão dispostos os setores residenciais.

Os eixos, Rodoviário (arqueado) e Monumental (reto), são pistas de velocidade, colocando Brasília como uma das poucas cidades onde uma via expressa é característica central de suas áreas residenciais, expressão descarada da importância do automóvel na vida contemporânea. Ao mesmo tempo, os espaços importantes só estão disponíveis aos pedestres, como a cobertura do Congresso (projeto de Niemeyer, bem como o de boa parte dos principais edifícios) e a Praça dos Três Poderes.

Outros projetos apresentados no concurso mostraram soluções curiosas, como sete áreas circulares de mais de 2 km de diâmetro, dispostas ao longo do Lago Paranoá, ou 18 edifícios residenciais altos e extensos, mas estreitos, como placas em pé, que abrigariam 16 mil pessoas cada um, todos num raio de pouco mais de 1 km. Ambos os planos foram premiados com o terceiro lugar.

No ano de 1957 também ocorreu a transferência da área de 5814 km² do Estado de Goiás à União. Em pouco mais de dois anos, a capital foi erguida, em um local até então pouco povoado e de difícil acesso. Israel Pinheiro foi nomeado prefeito, e a Novacap tornou-se o núcleo da administração pública brasiliense. No dia 21 de abril de 1960, data fixada por lei, Brasília foi inaugurada. Pela manhã, os Três Poderes da República instalaram-se simultaneamente na nova capital.

Apesar do aumento brutal da dívida pública do governo brasileiro durante a construção, e da conseqüente inflação gerada, Brasília atingiu seu objetivo de promover o desenvolvimento econômico do interior do país. Uma cidade moderna, tombada em 1987 pela Unesco como Patrimônio Cultural da Humanidade. Uma capital singular de uma grande nação. É isso que permanece, e que devemos àquele que tirou Brasília do papel após décadas: seu fundador, Juscelino Kubitschek.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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Daniel Perdigão Nass
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Jornalista responsável
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