economia de guerra
Investir no setor militar pode levar ao desenvolvimento de um país?

 ano 1  -  n.1  -   jan./jun. 2003 

por Daniel Perdigão

Divulgação Defense.gov
Pentágono, sede das forças armadas americanas

Poucas pessoas gostam de guerras. Elas causam destruição, sofrimento, grandes perdas materiais e de vidas humanas, sempre difíceis de recuperar. E o lado vencedor pode sofrer com a ira e a sede de vingança do lado perdedor. Mesmo assim, não é por nada disso que boa parte dos americanos era contra a guerra que o governo de seu país preparou contra o Iraque.

O que os americanos temiam eram as conseqüências da guerra na economia. A economia americana encontra-se atualmente em recessão, ou seja, entrou em um círculo vicioso: diminuiu a compra de produtos; com isso, as indústrias estão produzindo menos, e, por isso, demitem os funcionários de quem não precisam mais; com o aumento do desemprego, o número de compras cai ainda mais. Para piorar, a inflação americana está aumentando. Com isso, o poder de compra do trabalhador diminui. O mesmo salário já não paga tudo o que pagava antes. A guerra pode piorar a situação. Era um medo justificável, considerando o que aconteceu nos Estados Unidos durante as duas grandes guerras mundiais.

Para o governo, existe sempre a necessidade de escolha entre investimentos no setor civil, ou seja, nas atividades cotidianas (como agricultura, comércio, indústria de produtos usados no dia-a-dia, infra-estrutura, transportes etc.), e investimentos no setor militar (como em indústrias de armamentos, pagamento de militares, entre outras despesas).

Sempre que há um aumento dos investimentos no setor militar, há uma diminuição no setor civil. A não ser que haja um crescimento de toda a economia do país (ou seja, um aumento do número de negócios e da movimentação de dinheiro), a opção militar gera recessão, ou seja, diminuição da economia, com as conseqüências que os americanos já estão sentindo neste ano de 2003. A recessão cresce exponencialmente, enquanto o crescimento dos investimentos no setor militar é linear. É o que os economistas chamam de custos de oportunidade crescentes, o preço a se pagar pela alteração do destino dos recursos, que nem sempre têm o mesmo retorno nos dois setores diferentes.

Em 1940 e 1941, os Estados Unidos, mesmo tendo multiplicado por oito sua produção militar, conseguiram crescer 18% no setor civil no mesmo período. No entanto, no ano seguinte, a produção militar foi multiplicada novamente, desta vez por quatro, mas a produção civil perdeu todo o crescimento obtido nos dois anos anteriores, voltando ao nível de 1939. Em 1943, diminuiu mais 6%, e só não mergulhou o país numa recessão porque os investimentos civis e militares somados cresceram.

Isso aconteceu porque os Estados Unidos se encontravam no auge da sua capacidade produtiva, ou seja, não havia como aumentar a produção, apenas mudar seu objetivo, de civil a militar. Japão, França e Rússia também tiveram de sacrificar a produção civil. Na Alemanha foi diferente. Lá, o chanceler Adolf Hitler aumentou os já altos gastos militares em 8 vezes de 1934 a 1939, sem diminuir o tamanho do setor civil. Isto porque, em 1933, 27% dos alemães estavam desempregados, ou seja, havia como aumentar a produção militar sem prejuízo da produção civil. Bastava utilizar a força de trabalho desocupada, e foi isso o que Hitler fez. Em 1939, a taxa de desemprego da Alemanha caiu para zero.

Como se vê, parece até vantajoso entrar em guerra. Tanto nos Estados Unidos quanto na Alemanha, o aumento dos gastos militares acabou sendo, de certa forma, benéfico. O problema é que as perdas em uma guerra são muito grandes, tanto em vidas quanto em bens materiais. Além dessas perdas diretas, existem outras que os economistas costumam destacar.

Os custos de oportunidade crescentes são um deles. Uma fábrica de revólveres pode passar a produzir armas militares com certa facilidade. Uma fábrica de automóveis, no entanto, não é capaz de produzir a mesma quantidade de tanques de guerra. Isto porque ela foi construída para produzir automóveis, não tanques. Desta forma, à medida que a produção civil é reduzida fortemente, ela não gera um crescimento equivalente na produção militar. Este fato torna a produção mais cara, e impõe um limite à possibilidade de mudança do destino da produção, se civil ou militar.

A economia de um país em guerra perde fôlego também por outro motivo. Os recursos destinados à produção militar, na maioria das vezes, são considerados não-reprodutivos, ou seja, estes recursos não podem ser usados para gerar mais recursos. A construção de uma fábrica de computadores, por exemplo, gera mais riquezas, já que os computadores são usados para aumentar a produção de outras empresas. O mesmo investimento numa fábrica de aviões militares não teria o mesmo retorno, já que os aviões militares só podem ser usados com fins bélicos.

Mas a produção militar pode ter vantagens. O desenvolvimento de novas tecnologias aumenta muito em períodos de guerra. Tanto que os grandes saltos tecnológicos do século 20 ocorreram nas décadas de 1910 e 1940, as décadas de guerras, além da década de 1960, durante a corrida espacial (que não deixou de ser uma guerra, desta vez para ver quem conquistaria primeiro o espaço). Isto acontece porque você precisa ter recursos, como armas e veículos, mais eficientes do que as do inimigo. E, para isso, precisa desenvolvê-las.

Foi o que aconteceu nos Estados Unidos após as guerras mundiais. Os investimentos militares acabaram dando aos americanos uma posição de liderança tecnológica. Os países pobres que vivem em guerra, por não fabricarem suas próprias armas e sim importarem-nas de outros países, só têm prejuízo. É o caso de diversos países africanos. Índia e Paquistão mudaram de caminho e agora fazem sua economia andar aumentando os gastos com defesa. Os dois países já desenvolveram até a bomba atômica. Ou seja, é possível fazer a economia crescer investindo em tecnologia militar. Invenção de americano.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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