canal do panamá: 90 anos
A primeira construção monumental do século passado completa 90 anos em 2004

 ano 2  -  n.4  -   jul./dez. 2004 

por Rodolfo A. Vieira

Divulgação
Selo americano que reproduz o canal: domínio secular

Em 1914 foi concluído um projeto faraônico, que, na época, significava o mesmo que a corrida espacial do nosso tempo. Esse projeto audacioso é o canal do Panamá, que divide a América em duas, atravessando o istmo do Panamá. Ele possui quase 80 km de extensão, dispondo de três comportas, num sistema de eclusas. O canal revolucionou as viagens marinhas, encurtando em semanas a travessia marítima do oceano Atlântico para o Pacífico e vice-versa.

À construção do canal deu-se início em 1881, por iniciativa de Ferdinand de Lesseps, um engenheiro francês que já havia participado da abertura do canal de Suez. O novo desafio no Panamá parecia, para Ferdinand, uma conquista a ser acrescentada em seu currículo. Mas primeiro ele precisava desbravar a difícil e isolada região da América Central, toda recoberta por uma densa mata virgem. Só a primeira terça parte da construção do canal exigiu 25 mil vidas de operários.

Durante oito anos Ferdinand de Lesseps insistiu na superação dos inúmeros obstáculos que surgiam para atrapalhar a construção do canal. Mas finalmente, em 1892, a falência da "Compagnie Universelle du Canal Interocéanique", que financiava o empreendimento, pôs fim ao sonho do intrépido engenheiro. Mas havia muito tempo a construção do canal deixara de ser um desafio pessoal ou de um grupo de investidores. É por isso que, em 1904, os Estados Unidos assumem o projeto, mas não sem antes garantirem que seus investimentos não seriam desperdiçados.

Até então o Panamá fazia parte do território que compreendia a Grande Colômbia (atualmente separada em quatro países: Equador, Colômbia e Venezuela, além do próprio Panamá), que não aprovava a transferência da construção do canal para os americanos. Com isso, os Estados Unidos incentivam o Panamá a obter sua independência e, em 1903, uma esquadra naval americana ancora em águas panamenhas e, em conjunto com forças locais de libertação, declaram a independência da República do Panamá.

Com o novo governo, foi firmado um acordo, dando aos Estados Unidos direitos perpétuos sobre uma faixa do território panamenho para a construção e exploração do canal. Finalmente, em 1914, o projeto é finalizado, inaugurando-se, assim, o canal do Panamá. Em 1977, um novo acordo é feito, onde os Estados Unidos se comprometiam em devolver o controle do canal ao governo panamenho em dezembro de 1999.

De fato, em 14 de dezembro de 1999, foi organizada uma cerimônia, onde compareceram como convidados ilustres o rei Juan Carlos, da Espanha, o secretário de estado americano Colin Powell, além de celebridades do cinema, como o ator Sean Connery. Nesta cerimônia solene, o presidente americano à época da assinatura do acordo, Jimmy Carter, simbolicamente entregou a posse do canal às mãos da presidente panamenha, Mireya Moscoso.

Só o canal do Panamá representa 25% da riqueza da república de mais de 2 milhões de habitantes. Outra fonte de renda é a zona livre de impostos localizada na costa atlântica. O país é considerado um paraíso fiscal e mais de cem bancos estrangeiros estão ali instalados. Uma base militar americana com 12 mil homens ainda opera em território panamenho, como um sinal do controle que os Estados Unidos já exerceram na região.

A travessia do canal é feita através de três eclusas, onde a diferença do nível das águas de cada lado das comportas serve para elevar ou descender o navio de um nível para o outro. Por exemplo: um navio do Atlântico entra na primeira comporta, onde a água se encontra no mesmo nível do oceano. Após a comporta ter sido fechada é introduzida água (ver figura da esquerda), por um sistema de válvulas, até que o navio atinja a altura de 26 metros, que é a altura em que se encontra o lago Gatún, abastecido por rios que cortam a região.

Daniel Perdigão
O sistema de eclusas operando na descida (esquerda) e na subida (direita) da embarcação

Quando o nível do lago interior é alcançado, as válvulas (em vermelho) são fechadas, as comportas abertas e a embarcação passa, navegando pelo lago até a próxima etapa do processo, que se equipara à primeira, mas em sentido inverso (ver figura da direita). Toda a travessia dura cerca de 10 horas, contra as várias semanas que seriam necessárias para navegar da costa leste à costa oeste dos Estados Unidos contornando a América do Sul.

Desde a inauguração do canal até os dias atuais ele perdeu muito de sua importância estratégica e comercial. Talvez um dos maiores golpes tenha sido a aviação. O transporte aéreo, tanto de pessoas quanto de mercadorias, revolucionou as viagens intercontinentais, desfavorecendo significativamente as viagens marítimas e, por conseqüência, o uso do canal do Panamá. Outro fator foi as exigências mercadológicas por navios mais robustos, com capacidade para transportar quantidades cada vez maiores de mercadorias e que, fatalmente, produziam navios grandes demais para passar pelo estreito canal. Por esses e outros fatores essa passagem interoceânica acabou perdendo um pouco do seu brilho.

O canal do Panamá é uma obra digna de espantos e admirações, levando-se em consideração a época e, por conseqüência, os recursos financeiros, tecnológicos e de mão-de-obra com que foi realizada. Para a República do Panamá, o canal foi uma bênção e uma maldição. Bênção, porque essa porta interoceânica colocou esse minúsculo país no contexto mundial, além de atrair recursos financeiros que jamais conseguiria de outra forma. Porém, é uma maldição, pois, sendo o canal um ponto estratégico de cobiça intercontinental, a república panamenha será sempre alvo de interesse das potências mundiais e nunca poderá aproveitar sua soberania sem a interferência dos governos estrangeiros que se sentem atraídos pelas vantagens que o canal oferece.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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Rodolfo Augusto Vieira

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