amapá: onde o brasil começa
Uma história rica, de gente que teve a coragem de se estabelecer num lugar antes inóspito, hoje receptivo, agradável e preservado

 ano 4  -  n.8  -   jul./dez. 2006 

por Rodolfo A. Vieira

DigitalGlobe
Forte de São José: símbolo do Amapá presente até em sua bandeira

Para muitos dos brasileiros que moram no centro-sul do País, qualquer região fronteiriça no Norte é considerada lugar inóspito, sem condições de abrigar com dignidade qualquer pessoa, exceto os índios. Sem dúvida, é uma imagem preconceituosa dos estados nortistas. O Amapá, por exemplo, tem uma história riquíssima, de gente que enfrentou as dificuldades de se estabelecer na região amazônica e o transformou em um Estado brasileiro.

O nome "Amapá" tem origem indígena, da Nação Nuaruaque, e se refere a uma árvore da região amazônica, o Amapazeiro, de tronco volumoso, de até um metro de diâmetro na base e casca espessa, por onde escorre seiva em abundância (como nas seringueiras). Essa seiva é o "leite de Amapá", usado pelas tribos ali instaladas como tendo propriedades medicinais para combater diversos males, dentre os quais a tuberculose e problemas gastrintestinais.

A documentação mais antiga com referência à região é de cartas escritas por Américo Vespúcio, em 1499, que, sob as ordens de Castela e Aragão, reinos da atual Espanha, navegou pela costa amapaense e visitou as ilhas da região. Pouco depois, em 1500, os reis d'Espanha Fernando e Isabel ordenaram ao explorador Vicente Pizón que percorresse o rio Oiapoque, que, durante muito tempo após essa expedição, passou a ter o nome do navegador.

O controle da região onde se situa o Estado foi cedido ao português Bento Manuel Parente em 1637, como capitania, tendo o nome de Costa do Cabo Norte. Mas foi somente a partir de 1688 que a fixação portuguesa na região efetivamente começou, com a construção da fortaleza de Santo Antônio, para impedir a ocupação da área por ingleses, holandeses, espanhóis e franceses. Foi pelo fato de a região ser habitada à época, em sua maioria, por índios da Nação dos Tucujus, que a batizaram de Terra dos Tucujus, ou Tucujulândia. Porém, depois de Portugal assinar um tratado com a França, em 1700, a região teve de ser abandonada, por se tratar de território neutro e, por isso, ser proibido o estabelecimento tanto de colonos portugueses como de franceses. Só que a França não respeitou o tratado e, já no ano seguinte, começaram incursões de franceses no território.

As tensões continuaram ao longo dos anos. Portugal apelava à Inglaterra, sua aliada, para que interviesse na questão. Foi então que, em 1713, na Holanda, foi firmado o tratado de Utrecht, entre Portugal e França, com a rainha inglesa Ana como intermediadora. Nesse tratado, o rio Oiapoque ficou definido como fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. Mas infelizmente, segmentos da sociedade francesa não concordaram com o tratado e as invasões continuaram no território até cerca de 1722, quando uma resistência mais efetiva dos portugueses se fez sentir por João da Maia da Gama que, naquele ano, assumiu o governo do Estado do Maranhão e Grão-Pará e organizou expedições militares para frear as invasões francesas.

Durante décadas o território amapaense permaneceu praticamente abandonado, servindo apenas como uma possessão geográfica e fonte de mão-de-obra indígena. Os poucos investimentos na área eram direcionados apenas para os destacamentos militares, posicionados em Macapá, para a defesa da região. Em 1751, quando Francisco Xavier de Mendonça Furtado assumiu o governo do Maranhão e Grão-Pará, foi organizada a primeira expedição colonizadora para se estabelecer em Macapá. Esta expedição foi constituída em sua maior parte por emigrantes das ilhas dos Açores. Mesmo com a falta de recursos, o desinteresse da coroa portuguesa e as péssimas condições de vida, com doenças fora de controle, o povoado cresceu.

Mesmo com a presença portuguesa na região e, após a independência do Brasil em 1822, os franceses sempre estiveram presentes e representavam uma ameaça. Tanto que, em 1885, numa aventura romântica e sonhadora, o escritor Jules Gross, membro da Sociedade de Geografia Comercial Francesa, cria, junto com mais alguns empresários excêntricos, a Republiqueta de Cunani, de curta duração. Mas foi mesmo em 1893, com a descoberta de jazidas de ouro na bacia do rio Calçoene, que o caos se instaura: uma onda migratória de pessoas de diferentes nacionalidades se estabelece no Amapá para a extração do metal, agravando as já precárias condições de salubridade e de controle administrativo da região. A França aproveita a situação para estabelecer órgãos de controle político nas áreas de garimpo e passa a cobrar impostos, assumindo a posse dessas áreas e desviando os minérios extraídos para seu território. Essa situação de tensão se prolongou por mais alguns anos quando, finalmente em 1900, uma corte internacional reunida em Genebra, na Suíça, dá ganho de causa ao Brasil, dando surgimento, então, ao território de Araguari, incorporado ao Pará. Somente em 1943 é que o território passa à administração federal com o nome de Amapá. Na promulgação da atual constituição federal, de 1988, o Amapá foi elevado à categoria de Estado da União.

Atualmente, a economia amapaense se baseia no extrativismo mineral e vegetal. Foi a descoberta, em 1945, de grandes reservas de manganês, na serra do Navio, que deu um grande impulso na economia local. A grande extensão de ricas florestas reserva um grande potencial, ainda inexplorado, para a indústria moveleira, que já ajuda a movimentar a economia do Estado. Apesar de ser área livre de comércio, não atrai grandes investimentos industriais, por haver forte concorrência de outras áreas próximas, já com um parque industrial bem desenvolvido, como Manaus. O turismo também apresenta grande potencial de exploração, mas a falta de investimentos no setor prejudica seu desenvolvimento.

Num contexto geral, o Amapá é uma região de muitas oportunidades a ser desenvolvidas, e rica em recursos naturais. Porém, é negligenciada pela União, assim como outras regiões do país, sejam elas nas fronteiras de nosso território ou em pontos de difícil acesso. Espera-se que a situação mude, e que o Amapá possa transformar suas riquezas em bem-estar ao seu povo no futuro.

A bandeira

Em 30 de janeiro de 1984, foi escolhida a bandeira do Amapá por uma comissão designada pelo governador do então território federal. De formato retangular e composto, além do negro, pelas cores azul, verde, amarelo e branco, seguindo as cores da Bandeira Nacional, o pavilhão está mostrado na figura acima. As cores têm os seguintes significados: o azul representa a Justiça, e também o céu amapaense. O verde se associa à floresta nativa, em grande parte ainda preservada, bem como a esperança, o futuro, o amor, a liberdade e a abundância. O amarelo remete à união e às riquezas do subsolo. O branco, à pureza e à paz, ou seja, à vontade dos amapaenses em viver com segurança e em comunhão, significando ainda que a discórdia não pode existir entre a população e os seus representantes no poder público. O negro é símbolo do respeito permanente a todos aqueles que, em vida, fizeram algo para o engrandecimento do Amapá.



Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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