leishmaniose: um mal desconhecido
Compreenda melhor o mecanismo de propagação e os sintomas desta doença fatal

 ano 6  -  n.11  -   jan./jun. 2008 

por Rodolfo A. Vieira

sxc.hu
Cão da raça beagle: afetado pela leishmaniose

A leishmaniose visceral é uma doença que afeta homens e animais, como o cão e determinadas espécies de raposas. Seu foco de ação se concentra em áreas silvestres, em localidades rurais e, em menor proporção, em centros urbanos. No Brasil, há registros de casos em 17 unidades da Federação, sendo que 95% deles só na região Nordeste. É uma zoonose que deixa os órgãos de saúde em alerta e que visivelmente está se alastrando geograficamente no Brasil, no continente americano e em outras partes do mundo.

A leishmaniose visceral, humana ou animal, ocorre por ação de um protozoário da família Tripanosomatidae. Apresenta dois estágios de vida: amastígoda, quando habita o interior de determinadas células de organismos vertebrados; e promastígoda, quando se encontra instalado dentro do tubo digestivo de invertebrados, como o mosquito.

O ciclo de vida do protozoário Leishmania chagasi começa na parede estomacal do mosquito-palha, como é popularmente conhecido. Quando o mosquito pica o cão, ou o homem, o parasita é transmitido através da saliva anticoagulante do inseto. Uma vez no organismo do animal, o invasor ocupa as hemácias, células vermelhas do sangue, se multiplicando em seu interior até que as arrebentem. Com isso, são liberadas novas gerações de parasitas e substâncias tóxicas no sangue, que causam febres e mal-estar no hospedeiro. Por isso, as pessoas infectadas têm febres periódicas, que coincidem com a eclosão dessas hemácias.

A febre é apenas um dos sintomas que uma pessoa pode apresentar quando está infectada pela leishmaniose. A fraqueza e a apatia causados pela anemia que se desenvolve pela perda das hemácias são mais alguns deles. Sangramentos cutâneos, aumento do baço e do fígado são outros.

O tratamento utilizado atualmente para as pessoas infectadas é o uso de antimoniais pentavalentes (Sb5+), que, além de ter um alto custo financeiro, é longo, doloroso e, devido à sua toxicidade, apresenta efeitos colaterais cujos sintomas são quase tão ruins quanto a própria doença. O tratamento consiste em aplicações consecutivas e ininterruptas da substância em um tempo estimado de 20 a 40 dias. Nesse período, o paciente poderá sentir cefaléias, anorexia, mal-estar, alterações hepáticas e sérias alterações cardiovasculares que podem levar as pessoas mais sensíveis a arritmias e à morte súbita.

Está em fase de experimento um tratamento alternativo que consiste numa dose única de anfotricina lipossomal. Segundo testes preliminares, após seis meses da aplicação do medicamento, 90% dos pacientes ficaram livres do parasita. A substância ainda causa efeitos colaterais, como febres, vômitos e dores lombares. Mas são menos intensos e afetam uma proporção menor dos usuários. Além disso, este tratamento, em comparação com os demais, mesmo usando um medicamento mais caro, é vantajoso quando são analisados os custos gerais do processo e o próprio bem estar do paciente.

Infelizmente, não há tratamento efetivo quando a infecção é canina. É por essa razão que o combate ao parasita se torna tão difícil. A falta de uma vacina que imunize os cães faz com eles se tornem reservatórios da doença e perpetuem o ciclo de vida do protozoário. Uma vez contagiado, o animal passa a ser fonte de contaminação até o fim de sua vida. Como não há tratamento, o mal vai se agravando por meses a fio, minando as defesas do organismo. Por isso que, tão logo seja detectada a infecção, recomenda-se o sacrifício do cão, para evitar que a doença se espalhe pela região por intermédio do mosquito. Os sintomas mais comuns são: espessamento das bordas das orelhas, crescimento anormal das unhas, falta de apetite e emagrecimento, alteração do aspecto e perda da pelagem e paralisia dos membros posteriores.

Uma alternativa de combate à doença seria a eliminação do mosquito transmissor. Porém, como o inseto habita predominantemente regiões silvestres, o uso de inseticidas tóxicos causaria grande impacto ambiental.

São registrados cerca de dois mil casos de leishmaniose por ano no Brasil, e quase 10% destas vítimas acaba morrendo. A Fundação Nacional de Saúde (Funasa) consome mais de um milhão de dólares americanos para eliminar 100 mil animais anualmente. Mais que uma doença injusta que vem atingir nossos animais de estimação, obrigando-nos a sacrificá-los mesmo parecendo sadios e cheios de vida, a leishmaniose ameaça vidas de pessoas. É imperativo que tenhamos controle sobre esse mal.
 

Outros nomes

A leishmaniose também é conhecida como calazar, úlcera de Bauru ou leishmaníase. Já o mosquito-palha também é identificado como birigui, popularmente, ou Lutzomyia longipalpi, cientificamente.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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Rodolfo Augusto Vieira

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