esta é a minha cidade
O que faz de uma localidade "um lugar bom para se viver"?

 ano 8  -  n.15  -   jan./jun. 2010 

por Daniel Perdigão

Divulgação
Balneário de Águas de Lindoia, no interior paulista: exemplo

"Ah, como eu queria viver no campo, ou na praia!" Você já deve ter ouvido essa frase de alguém, ou mesmo já tê-la pronunciado. São, de fato, milhões de brasileiros – embora o fenômeno seja mundial – que desejam mudar de vida imediatamente ou quando se aposentarem. No entanto, há uma relativa unanimidade que aponta que certas cidades, sim, "dão gosto de morar", e outras não. O que faz uma cidade como Águas de Lindoia (SP), por exemplo, bem como suas vizinhas, ser desejada, e outras cidades interioranas, como as que vivem da cana-de-açúcar, não despertarem o mesmo encanto? Dois fatores se mostram decisivos para que, não apenas uma cidade, mas a microrregião em que se localiza, sejam locais apreciáveis para se viver: o sistema produtivo local e a questão ambiental.

Quando se fala em sistema produtivo local, a ideia que se deve ter é a de um tipo de estrutura de produção em que um conjunto de empresas, ainda que concorrentes, se especializa em um certo tipo de fabrico, o que ajuda a atrair fornecedores e cria um ciclo que reduz custos, aumenta a produtividade e facilita a formação de mão-de-obra qualificada e especializada. E, visto que a produção se torna grande o suficiente para ter de conquistar mercados distantes, as empresas passam a cooperar entre si até certo ponto, com o objetivo de otimizar o processo de crescimento conjunto. No interior paulista, este tipo de núcleo é extremamente comum. É daí que vem Franca como a capital do calçado, Marília como a capital do alimento, e isso sem falar em núcleos menos conhecidos, como Ibitinga e Tabatinga na produção de bordados e pelúcias, ou Porto Ferreira na indústria moveleira.

Uma característica interessante destes núcleos é uma tendência a se evitar a concentração de empresas resultante da economia de escala. Ou seja, as empresas tendem a não se fundir e não ser vendidas para grupos maiores. Isso implica em manutenção do emprego, ambiente de trabalho positivo, produtividade crescente e bem-estar geral da população. Ou seja, as cidades que possuem estes clusters, palavra inglesa que também pode definir estes sistemas produtivos locais, tendem a ser cidades mais atraentes para se viver.

E quanto às cidades que não possuem estes agrupamentos empresariais? Bem, neste caso, o importante é investir na questão ambiental. Quando nos referimos a "ambiental", não queremos, necessariamente, dizer "natural". O ambiente compreende o patrimônio natural, sim, mas também inclui o patrimônio histórico, o cultural, o estético... Geralmente, as cidades menores, pela maior dificuldade de criar clusters de manufatura, acabam buscando criar núcleos de exploração sustentada desse patrimônio. Ou seja, diagnosticam as vocações patrimoniais do território onde se localizam e viabilizam a sua exploração. Atualmente, a posse destes elementos tem sido muito mais frequentemente valorizada como oportunidade de geração de emprego e renda na exploração conservacional, de orgulho regional, de marca notória da comunidade local.

É óbvio que a exploração destes recursos traz turistas. Veja o exemplo citado no primeiro parágrafo, da cidade paulista de Águas de Lindoia. A combinação de belas paisagens com as águas minerais fez com que o balneário crescesse e atraísse turistas. Mas é superficial demais pensar que a cidade se sustenta apenas do turismo de fim de semana ou de temporada. O trunfo patrimonial que o município possui faz com que famílias de classe média desejem morar naquele local, o que pode viabilizar novos projetos de desenvolvimento regional. Também faz com que, quando se tornarem aposentados, fixem residência permanente na cidade, o que cria um fluxo financeiro constante para o local.

Por outro lado, cidades que se constituem apenas como pequenos núcleos urbanos ou semiurbanos para pouso e fixação de pessoas que vivem do setor agrário não são atraentes. Isto ocorre porque a destruição do patrimônio é muito grande. A alteração do ambiente natural já se fez de tal forma que os próprios habitantes não se sintam seguros sobre a permanência do ambiente da forma em que está, não havendo confiança no próprio futuro. Quando alguém viaja pelo interior paulista, especialmente – mas não somente – na região de cultivo da cana-de-açúcar, percebe a existência de muitas cidades sem identidade. Com a crescente mecanização da lavoura, a redução da demanda por mão-de-obra, a crescente degradação do ambiente, com paisagens monótonas devidas às monoculturas locais, as localidades interioranas perdem sua exclusividade. Para alguém de fora, tanto faz estar em Barrinha ou em Guariba: as paisagens e culturas características do local foram destruídas ou sufocadas.

Há economistas que afirmam que é justamente o patrimônio que possibilita a diferenciação de territórios em um processo de competição por investimentos. Somente oferecendo o diferente, o exclusivo, o singular, é que se pode ganhar uma concorrência sem necessitar baixar o nível dessa competição ao ponto de ter de oferecer, meramente, custos mais baixos. Assim, incentivar a formação de clusters baseados em identidades culturais regionais ou em patrimônios é uma forma de promover a imigração positiva e a felicidade da população local. É isso o que faz de uma cidade um lugar em que as pessoas desejam, verdadeiramente, morar.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito

Jornalista responsável
Daniel Perdigão Nass (MTb/SP 37654)

Imprenta
Gurupi, TO, Brasil

ISSN 2446-4759