país do campo
O Brasil é mais rural do que dizem os números

 ano 8  -  n.15  -   jan./jun. 2010 

por Daniel Perdigão

Daniel Perdigão
Itaqueri da Serra, distrito de Itirapina (SP): paisagem rural

Se você assistiu às aulas de Geografia, já deve saber que o Brasil está cada vez mais urbano. A cada dia, uma proporção maior de pessoas está vivendo em cidades, e não mais no campo. No entanto, não existe uma única definição daquilo que pode, realmente, ser considerado uma cidade. Há quem afirme – e quem já esteve em uma localidade assim pode atestar – que certas sedes municipais mal podem ser consideradas cidades. Mas não pense que isso é coisa de gente da cidade grande, não. Existem razões muito claras para esta classificação.

No Brasil, considera-se população urbana aquela que vive nas sedes municipais, ou seja, que vive dentro do perímetro urbano do entorno do local onde se instalam os poderes públicos locais, como a Prefeitura Municipal e a Câmara de Vereadores. A questão é que a definição daquilo que é perímetro urbano é muito questionável. Estima-se que 40% das mais de 5.500 prefeituras brasileiras não tenham definido aquilo que é o seu perímetro urbano, e muitas delas os definem muito maiores do que deveriam para poder cobrar o IPTU, imposto sobre a propriedade urbana, que vai direto aos cofres municipais, em lugar do ITR, o imposto da propriedade rural, que é federal e até há pouco tempo só era repassado ao município na proporção de 50% brutos.

Pelo critério do IBGE, o órgão federal de estatística, a taxa de urbanização da população brasileira, em 2000, era de 81,2%. Se contados apenas os municípios recenseados em 2007 – todos os que possuíam menos de 170 mil habitantes estimados e mais alguns poucos selecionados – a taxa subiu de 70,7% em 2000 para 73,6% em 2007, sendo que o Amapá, veja só, seria mais urbano que São Paulo, atingindo quase 90% de população urbana.

Em outros países, o critério para o cálculo da taxa de urbanização é outro, e compreende não apenas duas categorias (zonas urbana e rural), mas três:
- Essencialmente rurais são as regiões onde mais de 50% dos habitantes vivem em localidades rurais;
- Relativamente rurais são regiões em que uma proporção de 15% a 50% da população é rural; e
- Essencialmente urbanas, onde menos de 15% da população vive em localidades rurais.

É desta forma que a OCDE (Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Econômico) chega à conclusão de que a França, por exemplo, também era um país bastante ruralizado em 1996, com 30% da população vivendo em regiões essencialmente rurais e outros 41% vivendo em regiões relativamente rurais, e que, nos Estados Unidos, tais taxas eram, respectivamente, de 36% e 34%.

O professor José Eli da Veiga, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo, sugere, então, outro critério para se determinar a categoria da população, baseado em números do próprio IBGE. Para ele, são essencialmente urbanos municípios que possuam densidade populacional acima de 80 habitantes por quilômetro quadrado (80 hab/km²), pois esta é uma densidade populacional mínima das grandes áreas urbanas de regiões metropolitanas. Essencialmente rurais são os municípios com menos de 20 mil habitantes que não estejam em regiões metropolitanas ou não tenham densidade superior a 10 hab/km². São relativamente urbanos (ou relativamente rurais, como preferir) municípios que estejam entre estes critérios, ou seja, que não atendam a nenhum deles. Por este critério, existiriam, em 2000, 4.485 municípios rurais, 455 municípios urbanos e 567 municípios com características urbanas e rurais convivendo juntas.

Assim sendo, São Carlos, cidade do interior de São Paulo, com seus 192.998 habitantes em 2000 (em 2008 estima-se que seriam 218.080), é uma cidade considerada essencialmente urbana, por ser uma cidade grande (acima de 100 mil viventes) e ter uma densidade populacional de 169 hab/km². O vizinho município de Descalvado, que contava 28.921 habitantes em 2000 (29.533 na recontagem de 2007) e 38 hab/km², é município que possui características urbanas e rurais. Outro vizinho, o município de Itirapina, de 12.836 moradores em 2000 (13.889 recontados em 2007), pode ser tido como essencialmente rural.

Analisando-se as cidades e seus perfis econômicos e de ocupação, fica nítido que a classificação parece ser bem razoável. São Carlos, com suas universidades e empresas de alta tecnologia, comércio amplo e referência para a região, é urbana. Descalvado, assim como tem características urbanas, como um comércio significativo, universidade e grande número de empresas instaladas, também não esconde a ligação direta com o meio rural, já que a maior parte das empresas de porte do município está ligada ao setor primário, com atividades de mineração, de beneficiamento de produtos agrícolas etc. Itirapina praticamente não tem indústrias, possui um comércio fraco e tem grande parte da população ativa trabalhando no setor primário ou em empregos públicos, ou, ainda, na exploração econômica (turística) da conservação dos recursos naturais, o que também caracteriza um município rural.

Assim sendo, chega-se à conclusão de que, aproximadamente, um terço da população brasileira é rural. Se você acha que isto é absurdo, saiba que a Caixa Econômica Federal, ao buscar, no início desta década, empresas que pudessem atuar como correspondentes bancários em municípios em que era inviável a abertura de uma agência bancária ou mesmo um correspondente lotérico, descobriu, pesquisando as 1.997 menores sedes municipais, que 70 delas não possuíam sequer uma empresa formal. Nada de mercadinhos, botecos, armazéns, vendinhas como empresas formais. Outro exemplo muito comum, pelo inusitado e pelo extremo: sabe quantos habitantes existiam em 2000 na sede do município gaúcho de União da Serra, de acordo com o Censo? Dezoito. Não somente estas "cidades", mas milhares de outras devem, sim, ser consideradas núcleos de convívio comum de pessoas que vivem do campo. E isto é algo que os números oficiais de urbanização escondem.
 

União da Serra: sede de município quase fantasma

Divulgação/PMUS
Sede de União da Serra: absoluto predomínio do verde

O município de União da Serra, na região nordeste do Rio Grande do Sul, foi criado na década de 1990, dando autonomia política conjunta a dois distritos do município de Guaporé que, à época, não poderiam ser isoladamente emancipados: Oeste e Pulador. Para que não houvesse "privilégios", nem um nem outro distrito ganhou a sede municipal. Quem ficou com o prédio da prefeitura foi uma comunidade muito menor localizada entre Oeste e Pulador, chamada São Luiz, que, portanto, passou a ser sede municipal. Daí a razão de União da Serra ter apenas 18 habitantes na sede à época. Mas se você acha que a emancipação trouxe progresso, enganou-se: União da Serra, que possuía 2.203 habitantes em 1996, caiu para 1.908 em 2000 e sofreu nova queda, agora para 1.666, na última recontagem, realizada em 2007.


Saiba mais

VEIGA, José Eli da. Cidades imaginárias: o Brasil é menos urbano do que se calcula. Campinas: Autores Associados, 2002.



Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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Daniel Perdigão Nass
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Jornalista responsável
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