entendendo melhor a ciência
A Ciência, sua filosofia e sua história, em uma abordagem breve

 ano 8  -  n.16  -   jul./dez. 2010 

por Daniel Perdigão

sxc.hu
 

É inegável o caráter de autoridade que a Ciência possui nos dias de hoje. É muito frequente ouvirmos expressões como "cientificamente comprovado", ou "confirmado por cientistas" nos diálogos cotidianos, nas propagandas, nos jornais e revistas. Mais do que isto, a Ciência mostra que possui autoridade na cultura contemporânea ao passar definitivamente a fazer parte do conhecimento escolar em fins do século XIX. Mas, afinal, o que é Ciência?

Para responder a esta pergunta, precisamos retornar no tempo e recuperar a cultura grega na Antiguidade. Àquela época, os conhecimentos e as explicações sobre os fatos e os fenômenos naturais se baseavam, geralmente, na hipótese, e raramente passavam à etapa experimental, ou seja, do teste prático destas hipóteses. Ou seja, poucos eram os pensadores gregos antigos que podem ser considerados protocientistas, como Arquimedes, por exemplo. Este grego da ilha de Sicília (hoje território da Itália) chegou a conclusões bastante avançadas para a época, como nas áreas de Hidrostática e Óptica, graças à experimentação.

Na Idade Moderna, começamos a observar mais estudiosos fazendo uso de testes que validassem as suas hipóteses, como Galileu Galilei, Isaac Newton, entre alguns outros. Com a percepção de que a humanidade poderia conhecer melhor a Natureza se sistematizasse suas observações sobre ela, começam a surgir pensadores que incentivam esta revolução, como Francis Bacon, e obras que questionam os conhecimentos antigos e suas formas de obtenção, como "O Químico Cético", de Robert Boyle. Ainda assim, a expressão utilizada para o conjunto de conhecimentos e explicações de fenômenos naturais produzido à época, "Filosofia Natural", ainda parecia bastante adequada, por não haver, ainda, uma metodologia padronizada de investigação, ou seja, uma adesão maciça dos estudiosos a um método regrado de pesquisa.

É nesse caldo, por volta dos séculos XVII e XVIII, que a Filosofia Natural começa a se transformar em Ciência. E é aí, com uma crescente corrente de pensamento denominada iluminista, que surge um modelo inicial daquilo que se considera Ciência, ou seja, o primeiro método científico. Muitos autores consideram que este método científico possuía quatro etapas bem determinadas, segundo as quais seria possível conhecer a Natureza por completo: observação (do fato ou do fenômeno natural); hipótese (sobre a explicação da ocorrência ou da dinâmica do referido fenômeno); experimentação (que valida ou refuta a hipótese proposta); e tese (a conclusão derivada da experimentação, que realimente o processo de busca de novos conhecimentos).

O acúmulo de teses agrupáveis leva a leis, que são generalizações de observações diversas, em um tipo de raciocínio lógico chamado indutivo. Agrupamentos destas leis, por sua vez, formam teorias. Um exemplo é a Lei da Gravidade, alicerçada por diversas teses ou conclusões particulares. Trata-se de uma lei válida na Terra. Uma vez que há leis similares verificadas também em outros pontos do Universo, é possível generalizar estas leis em uma teoria: a Teoria da Gravitação Universal.

Mas, se olharmos, hoje, para a forma como o conhecimento científico é produzido, veremos que o método científico, tal como proposto há alguns séculos, sofreu profundas modificações, sendo considerado por muitos estudiosos da Filosofia da Ciência não mais um único método, mas diversos, uma vez que cada área da Ciência (a Física, a Química, a Biologia, entre outras, e mesmo suas ramificações) consagrou uma forma particular de validação do conhecimento produzido.

O século XX, que consagrou a Ciência como conjunto de conhecimentos tão importante que merecia ser ensinado na escola, também foi pródigo em nos trazer pensadores e visões diversas sobre como a Ciência é produzida. O filósofo francês Gaston Bachelard, por exemplo, entendia que o estado do conhecimento científico em um certo momento impede os cientistas de obter novos conhecimentos. Em outras palavras, os cientistas creem tanto no conhecimento já obtido que este os cega na busca de novos saberes. O que esta ideia de Bachelard embute é a dificuldade que têm os cientistas, como humanos que são, de abandonar teorias que um dia foram consideradas corretas.

Visão compartilhada parcialmente pelo austríaco Karl Popper e pelo húngaro Imre Lakatos é a de que a Ciência não se baseia em tomar para si as hipóteses que se comprovam verdadeiras, mas que se fia no descarte das hipóteses falsas. É atribuída ao alemão Albert Einstein a seguinte frase, na mesma linha de pensamento: "Nenhuma soma de experiência pode provar que eu estou certo, mas basta uma só experiência para provar que eu estou enganado." Em suma, Popper, Lakatos e Einstein entendem que uma teoria científica pode ser refutada e abandonada por completo pela descoberta de uma única exceção à regra definida por essa teoria.

Para finalizar, uma das contribuições mais pertinentes para a Filosofia da Ciência (também chamada Epistemologia) partiu não de um filósofo, mas de um físico. Na década de 1960, possivelmente tendo como base o trabalho de Gaston Bachelard, o norte-americano Thomas Kuhn apresentou a Teoria das Revoluções Científicas. Segundo Kuhn, ao contrário do que a visão positivista pregava, de uma Ciência que acumula conhecimentos progressivamente e continuamente, o desenvolvimento do conhecimento científico sofre rupturas.

Para Kuhn, a produção científica de uma certa época é crescente, assim como é crescente o número de exceções às regras vigentes. Este conjunto de teorias tidas como válidas pela comunidade científica em uma determinada época é o que Kuhn denomina paradigma científico. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que se produz conhecimento que reforça o paradigma, outros experimentos ou teorias surgem como exceções não explicadas por esse paradigma.

Em certo ponto, o número e a relevância das exceções às regras do paradigma é tão grande que este paradigma fica abalado. No entanto, se alguns cientistas clamam por um abandono das teorias antigas, outros não são capazes de abandoná-las tão facilmente, o que cria conflitos no ambiente acadêmico. Esta trajetória, que se encerra com a formação de novas teorias e de um novo paradigma, que acaba por se tornar tão consensual quanto o velho paradigma, é o que Kuhn chama de revolução científica.

Um excelente exemplo de revolução científica – embora, como já dissemos, a palavra Ciência não fosse utilizada à época e a experimentação não fosse a regra – se encontra no abandono do paradigma geocentrista como explicação para o movimento planetário em prol do paradigma heliocentrista. Ptolomeu, no século II d.C., pretendeu explicar o movimento retrógrado de Marte pela existência de epiciclos. Inicialmente razoavelmente precisos, os cálculos de Ptolomeu sustentaram o geocentrismo mesmo depois de Copérnico e o heliocentrismo. Foi apenas com o aumento da precisão matemática das teorias de Copérnico, representado, por exemplo, pelas leis de Kepler, que o heliocentrismo passou a ser aceito como paradigma explicativo do movimento planetário no nosso sistema solar.

Diante de tudo isso, é possível concluir que, por mais que o "cientificamente comprovado" se estabeleça como verdade inquestionável, em realidade ela não é. A Ciência é dinâmica e está sempre se servindo de novas descobertas, de novos conhecimentos, de novas leis, teorias e conclusões. Eis aí a beleza da Ciência, uma belíssima construção humana, tão representativa do nosso modo de vida contemporâneo.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

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