o turismo como área de estudo e pesquisa
Viaje nos conceitos deste importante conhecimento humano

 ano 10  -  n.19  -   jan./jun. 2012 

por Daniel Perdigão

Daniel Perdigão
Monumento Natural El Morado, Chile: local turístico

O turismo cresce no mundo. Ganha importância. Cada vez mais pessoas fazem turismo. A área tem sido tão estudada que já é objeto de cursos universitários inteiros. Sim, já há bacharéis em Turismo. No entanto, o conceito de turismo ainda é discutido pelos especialistas, sendo necessárias definições precisas sobre a área. Além disso, vale a pena conhecer mais sobre como o turismo tem se estabelecido como área do conhecimento humano, e o que o turismo estuda.

Possivelmente, o próprio conceito de turismo seja o mais polêmico. Não há dúvidas de que o turismo é uma prática social e, portanto, influenciado pela cultura. No entanto, seu sentido parece vir mudando ao longo da história, desde que as primeiras viagens organizadas, as Grand Tour, surgiram na Europa do século 17, feitas por homens jovens de alta renda, até os dias atuais. A própria existência de uma Organização Mundial do Turismo (OMT), ligada à ONU, desde 1974, já mostra o quanto o turismo cresceu e se modificou.

Para a OMT, turismo é uma modalidade de deslocamento no espaço e estada em lugar diferente do habitual, por período menor que um ano, mas pelo menos um pernoite, motivados por qualquer razão – lazer, saúde, negócios, educação, ciência etc. As exceções são os deslocamentos naturais da própria atividade profissional, ou seja, as viagens de tripulações de navios e aviões, motoristas profissionais e guias de viagem, e os deslocamentos exigidos para chegar ao local de trabalho ou de estudo, mesmo que ele fique em outra cidade.

O que é importante perceber pela definição de turismo da OMT é que a motivação de quem viaja não precisa ser, necessariamente, de lazer. Negócios e saúde também são motivações para viagens, e isso é turismo. Com isso, a OMT entende haver uma segmentação do turismo, ou seja, um turismo de lazer, um turismo de eventos, um turismo de negócios, entre outros, o que requer planejamentos e atitudes frequentemente diversos dos profissionais do turismo.

É aqui que mora a controvérsia, porque, muitas vezes, a qualidade das instalações e dos serviços turísticos é medida tendo em mente o turismo de lazer. Um hotel pode ganhar uma qualificação melhor e, portanto, cobrar diárias maiores, se contar com uma piscina, por exemplo, embora este tipo de estrutura seja praticamente dispensável para quem faz turismo de saúde. A acessibilidade do hotel, neste exemplo, faria muito mais diferença, mas tem um peso muito menor na avaliação de quem faz turismo de lazer.

Vejamos outros conceitos. Lugar turístico é um lugar já usado para o turismo ou que é vislumbrado como tendo potencial de ser usado para esse fim. O que define um lugar turístico não é a estrutura e os serviços para receber o turista, mas sim a existência dos próprios turistas. Veja o caso de algumas estações de esqui no verão. A estrutura está ali, mas os turistas, não, já que a motivação da viagem – esquiar na neve – não existe, uma vez que não há neve. Não dá para dizer que tais estações sejam lugar turístico nesse período.

O aspecto social também conta. A atribuição de valor a atrativos e paisagens turísticas é fortemente cultural. Uma praia do Nordeste brasileiro só é tida como turística porque as sociedades valorizaram, em algum momento, aquela localidade e os recursos naturais que ela oferece, atribuindo a ela um interesse especial. Cidades de peregrinação religiosa estão no mesmo caso.

O fator exotismo também conta na hora de definir um lugar turístico. O turista quer experiências diferentes das cotidianas. Uma favela carioca pode ter se tornado atrativo turístico porque alguém percebeu o caráter relativamente exótico do local, especialmente para turistas estrangeiros. Da mesma maneira, brasileiros podem viajar em busca de ver a precipitação de neve, algo banal para europeus. É comum que lugares turísticos guardem certo grau de contraste com o cotidiano em algum aspecto, por meio de sua beleza cênica, suas particularidades culturais ou sociais, as sensações que pode proporcionar, os seus equipamentos e serviços exclusivos, entre outros fatores.

Outra expressão que exige um olhar especial é “turismo de massa”. Esse cuidado se deve ao fato de que, além de atividade social, o turismo é atividade econômica. O turismo implica custos, trocas, venda de produtos e prestação de serviços. Assim, a expressão “turismo de massa” faz supor que haja um grande contingente de viajantes a afluir para um destino. Até aí, não há problema, desde que não tentemos definir o número mínimo de turistas para um turismo ser considerado “de massa”. O eventual equívoco está em supor que “turismo de massa” é “turismo das massas”, ou seja, um turismo popular e quase irrestrito. Turismo de massa é aquele previamente e tecnicamente organizado, envolvendo agenciamento da atividade e barateamento de custos individuais por meio da formação de grandes grupos de visitantes, além da estruturação de transporte, hospedagem e recepção de forma a poder ser atendido um maior número de pessoas.

Mas, por que o turismo de massa não é “das massas”? Ainda que o turismo venha atingindo classes sociais cada vez mais baixas, desde as elitistas Grand Tour, a ação turística ainda requer disponibilidade de recursos materiais e imateriais, como tempo e dinheiro, algo que, seguramente, é mais escasso ou raro nas classes inferiores. Tais recursos não se limitam a estes dois. Para usufruir de um lugar turístico, é preciso atribuir-lhe valor. A visita a um museu de arte parisiense, por exemplo, pode não ter qualquer valor à maioria das pessoas, o que as exclui do conjunto de potenciais visitantes, limitando o turismo. Assim, um turismo de massa está longe de ser um turismo das massas, porque está longe de poder atingir a fração da população mundial de menor renda.

O turismo é realizado, na maior parte das vezes, em áreas urbanas. Isto se deve ao fato de que a maior parte das modalidades turísticas é vinculada a estruturas urbanas. O turismo de negócios e eventos, a quase totalidade do turismo de saúde, a maior parte do turismo cultural, por exemplo, são urbanos. As modalidades de turismo em áreas não urbanas, por outro lado, vêm crescendo especialmente desde a década de 1990, tanto na modalidade natural quanto na modalidade rural. A prática de esportes e a contemplação da natureza estão relacionadas à primeira, enquanto à segunda estão ligadas atividades culturais, laborais e contemplativas tipicamente campestres.

É preciso notar que o turismo pode mudar o lugar em que ocorre. Não apenas economicamente, mas para a sua própria existência. Isto vai desde uma pequena intervenção – como a construção de um elevador que permita a descida a uma furna –, passa pela criação de estruturas de lazer e eventos que permita o afluxo de turistas ao longo do ano mesmo em locais cujo atrativo turístico maior é sazonal – criação de um parque temático ou de um centro de convenções em região cujo litoral só é propício ao banho no verão – chegando a projetos urbanos completos que promovam uma localidade originalmente desprovida de recursos naturais e humanos para que sirvam intensamente ao turismo – como Las Vegas e Dubai.

O impacto do turismo em uma certa região merece ser medido. Impactos turísticos podem ser de diversas naturezas: pode afetar o ambiente natural que é a própria atração turística, degradando-o a ponto de reduzir a atratividade turística; pode prejudicar as demais atividades econômicas e sociais da localidade, como o congestionamento de veículos e a falta de água potável em ilhas na alta temporada; entre outros prejuízos. Obviamente, pode haver impactos positivos, como a promoção da preservação ambiental, o incentivo para a construção de novas estruturas que sirvam também à população local etc. Obviamente, se for verificado que o impacto de uma atividade turística é negativo, o gestor público precisa intervir, corrigindo as falhas.

Por fim, vale reforçar que, lamentavelmente, as atividades turísticas, especialmente as de lazer, podem ser usufruídas apenas por uma fração da população: a que pertence a classes sociais superiores. Afinal, o tempo livre das pessoas de classes sociais inferiores precisa ser destinado a atender a suas necessidades básicas, não havendo sobra de tempo livre. A questão financeira também limita as possibilidades, à medida que fatias maiores do orçamento dos mais pobres têm destino obrigatório e inflexível, como moradia e alimentação. Aumentar as possibilidades turísticas, portanto, significa tornar a vida das pessoas mais digna, reduzindo suas jornadas de trabalho, aumentando suas rendas e possibilitando a elas usufruir mais e melhor de seu tempo ocioso. Por outro lado, otimizar o turismo, reduzindo tempos e custos, pode deixá-lo mais acessível. É exatamente aqui que entra o trabalho dos estudiosos do turismo. Daí a importância de estudar esta crescente área do conhecimento humano.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito

Jornalista responsável
Daniel Perdigão Nass (MTb/SP 37654)

Imprenta
Gurupi, TO, Brasil

ISSN 2446-4759