gurupi: sua história e seu povo
Um breve ensaio sobre a cidade de Gurupi e a sua população

 ano 11  -  n.21  -   jan./jun. 2013 

por Daniel Perdigão

Daniel Perdigão
Avenida Goiás, principal via comercial de Gurupi

Uma pessoa que se proponha a buscar descobrir informações sobre a cidade de Gurupi por meio de informações oficiais descobrirá que se trata de uma cidade localizada no sul do Tocantins, cuja população se aproxima da casa de 80 mil habitantes, o que representa o terceiro maior núcleo urbano do Estado. Mas isto tudo não ajudaria esta pessoa a entender Gurupi ao pisar na cidade. E é exatamente esta a contribuição que este pequeno texto pretende dar.

A região em que se situa a cidade de Gurupi, no então centro-norte goiano, permaneceu habitada apenas esparsamente, basicamente por povos indígenas, durante séculos. No início do século 20, o único povoamento urbano com alguma expressão na região era o da cidade de Peixe, às margens do rio Tocantins, como se pode observar pelo mapa de 1922 ilustrado abaixo.

Pequeno Atlas do Brasil, 1922
Gurupi fica a noroeste de Peixe, a meio caminho da Ilha do Bananal
Clique no mapa para vê-lo por completo

Mudanças começaram a se verificar nas décadas de 1930 e 1940. Cidades como Formoso do Araguaia, Cristalândia e Pium surgiram na esteira da exploração do cristal de rocha (quartzo). O período de exploração das minas foi curto, o que levou os aventureiros a se dispersar ou buscar alternativas econômicas. Uma delas foi a exploração de fazendas para agricultura e pecuária. Assim, fixaram-se os primeiros colonos na atual área urbana de Gurupi.

Em junho de 1952, esse pequeníssimo povoamento recebeu o incentivo que marcaria sua história: foi decidida pelo governo federal a passagem da BR-14, rodovia hoje conhecida como Belém-Brasília, por Gurupi. Era o incentivo que faltava para as decadentes cidades surgidas na esteira da exploração do quartzo verem a sua população migrar intensamente para a cidade nascente. Uma planificação urbana inicial não demorou a surgir.

Quando a rodovia efetivamente alcançou Gurupi, em agosto de 1957, o núcleo urbano já era expressivo, a ponto de, em 14 de novembro de 1958, o governo estadual promulgar lei emancipando Gurupi do município de Porto Nacional. A data é, hoje, considerada como a do aniversário da cidade. Além da atual área do município, também eram gurupienses as áreas dos atuais municípios de Cariri do Tocantins, Aliança do Tocantins e Crixás do Tocantins.

A construção de Brasília e a continuação da construção da BR-14 no rumo norte intensificou a migração para Gurupi. Contingentes populacionais oriundos do sul de Goiás, de Minas Gerais, de São Paulo e de estados do Nordeste do país aproveitavam as terras baratas, bem como as condições favoráveis de apoio à atividade agropecuária oferecidas pelos governos federal e estadual goiano.

As décadas de 1970 e 1980 só reforçaram a política de fortalecimento da atividade agrícola. Novas frentes migratórias, agora de paranaenses e, especialmente, de gaúchos, começaram a chegar à região, atraídas pelas terras ainda baratas quando comparadas às terras em seus estados de origem, bem como por novos projetos agrícolas, como o Rio Formoso. Gurupi foi, portanto, se tornando um centro urbano de referência para os produtores agrícolas da região: além de encontrarem na cidade serviços diversos, ligados ou não à atividade agropecuária, a maioria optava por fixar residência na cidade, em lugar de permanecer no campo.

Aspecto negativo a ser destacado é o predomínio de migrantes de terras distantes sobre os moradores tradicionais da região. A integração entre populações de culturas tão diversas foi tão expressivamente tranquila em Gurupi que a cidade ganhou o lema de “Capital da Amizade”. No entanto, sofreram mais os habitantes locais, que acabaram incorporando mais o estilo de vida dos migrantes do que o contrário. Tal percepção se encontra mais facilmente na forma de trabalho, nas construções, nas relações sociais, mas menos nas relações familiares e na cultura. Outra questão pertinente é a própria perda das terras dos habitantes locais, sertanejos e indígenas, para os migrantes, seja porque venderam barato tais terras, porque o Estado as expropriou ou, ainda, porque grileiros os expulsaram.

Gurupi parecia fadada a ser grande, em um crescimento econômico e populacional expressivos, mesmo em épocas economicamente difíceis como o fim da década de 1970 e toda a década de 1980. Tanto que, em 1988, a cidade representava o centro urbano de maior população em um raio de 500 km. Foi também neste período que a cidade ganhou seu primeiro curso universitário, mantido por uma fundação municipal.

No entanto, o desmembramento do norte goiano para a formação do Estado do Tocantins, que poderia trazer um impulso ainda maior para Gurupi, acabou tendo o efeito contrário. Isto porque Palmas, a cidade projetada para ser a capital do Tocantins, foi construída muito perto de Gurupi. Sabe-se que o então presidente, o maranhense José Sarney, não era a favor da criação do Tocantins, já que vetou por duas vezes projetos de lei que criavam o Estado. Talvez por isto, a capital do novo Estado tenha sido estabelecida suficientemente longe do Maranhão para impedir um fluxo emigratório mais intenso do estado nordestino para a nova unidade federativa nortista.

Com isso, geraram-se em Gurupi os efeitos que, supostamente, Sarney não queria para o Maranhão. Foram cerca de 15 anos de estagnação: econômica, sim, mas especialmente populacional. Apenas quando Palmas atingiu certo nível de maturação populacional e passou a crescer mais lentamente, Gurupi voltou a observar índices positivos de crescimento do número de habitantes.

Mas Gurupi soube, dentro de suas possibilidades, aproveitar o período. Manteve potência na agricultura e na pecuária. Buscou melhorar a qualidade de vida da população, o que é sempre difícil em épocas de grande fluxo migratório. Fez crescer a sua instituição de ensino superior, o atual Centro Universitário Unirg, a ponto de torná-la, antes da criação da Universidade Federal do Tocantins (UFT), referência no Estado.

Mais recentemente, Gurupi recebeu, a cerca de 10 km do seu perímetro urbano, a passagem dos trilhos da Ferrovia Norte-Sul. Os trilhos da nova ferrovia projetada, a Oeste-Leste, devem partir de Figueirópolis, cidade 50 km ao sul de Gurupi, tendo, assim, o potencial de transformar ambas as cidades e toda a região em um polo de logística e multimodalidade em transporte. Outro potencial que poderia ser mais bem aproveitado em Gurupi é a juventude de sua população e a existência de tantas instituições de ensino superior na cidade: além da UFT, seus quatro cursos de graduação, três mestrados e um doutorado, e da Unirg e seus 14 cursos de graduação, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Tocantins (IFTO) também ganhou recentemente um campus na cidade.

O futuro, portanto, sorri para Gurupi e sua gente. Mas é preciso buscá-lo. Mais justiça social, mais saúde, mais oportunidades de trabalho e atração de investimentos em atividades que não somente ligadas ao setor primário precisam estar na ordem do dia. é só assim que tocantinenses e migrantes poderão fazer de Gurupi, a segunda melhor cidade do Estado e a 623ª do País segundo o índice Firjan de Desenvolvimento Municipal 2012, um lugar ainda melhor para se viver.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito

Jornalista responsável
Daniel Perdigão Nass (MTb/SP 37654)

Imprenta
Gurupi, TO, Brasil

ISSN 2446-4759