equilíbrios e desequilíbrios no corpo humano
Conheça alguns dos fenômenos químicos que nos mantêm vivos

 ano 11  -  n.22  -   jul./dez. 2013 

por Daniel Perdigão e Michelle Zampieri

sxc.hu
 

Químicos consideram o organismo humano vivo como um grande sistema químico. Um imenso béquer, fervilhando em suas reações. Pensemos no conceito de equilíbrio químico: a tendência de qualquer sistema químico é atingir um ponto de estabilidade, em que as concentrações de reagentes e de produtos não mudam ao longo do tempo. Se você pensou que isso mais parece a morte, acertou. Uma das formas de fazer uma mistura de substâncias químicas ficar bem longe dessa situação aparentemente imutável é acrescentar mais reagente e retirar produto constantemente. É isso o que qualquer organismo, não somente o humano, faz ao ingerir alimento e ao excretá-lo, depois de digeri-lo. Podemos pensar, assim, que os organismos só caem em um estado de equilíbrio quando morrem.

É uma ideia muito interessante imaginar o organismo humano como um sistema químico que está constantemente fugindo do equilíbrio, mas deve ser usada com cautela. Nem todo desequilíbrio no corpo humano é desejável. Em muitos casos, o que ocorre é exatamente o contrário: só estamos vivos porque conseguimos garantir o equilíbrio químico em determinada reação ou processo orgânico. É o que acontece, por exemplo, no sangue humano: seu pH (medida de acidez) é mantido, por diferentes mecanismos químicos, bioquímicos e biológicos, em uma estreita faixa que vai de 7,35 a 7,45. Ou seja, o pH do sangue humano é ligeiramente básico ou alcalino, aí permanece e deve permanecer. Um grande problema ocorre quando o pH sai desta estreita faixa.

Duas espécies químicas estão presentes no sangue humano para garantir a manutenção do pH: o íon bicarbonato e o ácido carbônico. Esta proporção entre os dois deve ser de 20 para 1, aproximadamente. O aumento relativo da proporção de bicarbonato leva ao aumento do pH, enquanto o aumento relativo da presença de ácido carbônico gera redução do pH. Quando o pH fica abaixo de 7,35, denominamos o fenômeno como acidose. Há várias razões para que o organismo acabe entrando em acidose, sendo duas delas a contração de malária e a insuficiência renal crônica. Já o pH acima de 7,45 configura o fenômeno de alcalose, que pode ocorrer em condições de hiperventilação, ou seja, situação em que o organismo expele mais gás carbônico do que produz, ou pela ingestão de certos diuréticos.

Em Ciências da Saúde, um caso que chama a atenção é o do paciente com queimaduras severas. Quando um indivíduo é queimado, o plasma sanguíneo é levado à área queimada. Isto leva a um inchaço (chamado edema) no local da queimadura e a uma redução no volume sanguíneo circulante. Em um caso de queimadura em grande extensão do corpo, esta diminuição do volume do sangue pode dificultar a chegada de oxigênio aos demais tecidos do corpo. A falta de oxigênio, por sua vez, faz com que a via metabólica das células para a geração de energia seja alternativa. Esta via, chamada anaeróbia, tem como produto final o ácido lático. Este ácido precisa ser excretado e, para isso, é lançado pelos tecidos na corrente sanguínea. A terrível combinação entre menos volume sanguíneo e mais ácido lático na corrente leva rapidamente a um quadro de acidose, que, neste caso, é chamada de acidose metabólica.

O paciente nesta situação pode ter o volume de sangue reduzido a um ponto em que a pressão sanguínea cai a um ponto em que o organismo já não consegue compensar. Esta redução leva o organismo a uma dificuldade de retirar gás carbônico pela respiração, o que configura uma acidose respiratória. À medida que o quadro de acidose agrava, o paciente pode entrar em choque. É por isso que a respiração de gases ou fumaça durante um incêndio pode agravar a situação do paciente. Para auxiliar o paciente, recorre-se a um ventilador mecânico, que acelera a retirada de gás carbônico do organismo, reduzindo a proporção de ácido carbônico e aumentando o pH.

Entre as primeiras intervenções médicas a um paciente com este quadro também está a administração intravenosa de fluidos. Ou seja, são injetados, na corrente sanguínea do paciente, soluções para a correção do pH do sangue. Uma delas é a solução de Ringer com lactato. A solução de Ringer contribui para aumentar o volume do sangue circulante. Ela contém diversos sais, de forma a simular a concentração normal de sais no sangue. O íon lactato contribui para a correção do seu pH, pela formação de uma solução-tampão junto com o ácido lático.

Obviamente, a introdução de sais na corrente sanguínea deve ser cautelosa. Um controle contínuo da concentração de íons sódio e de íons potássio é realizado pela equipe médica, para que o paciente não sofra de hiponatremia (falta de sódio), hipernatremia (excesso de sódio), hipocalemia (falta de potássio) ou hipercalemia (excesso de potássio). São outros desvios da posição de equilíbrio que podem ocorrer em pacientes com queimaduras graves, a serem combatidos para que o paciente não caia no indesejado e irreversível equilíbrio final: a morte.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do Secular Educacional.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito

Jornalista responsável
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ISSN 2446-4759