economia da educação
Uma abordagem reflexiva sobre duas visões econômicas da instrução

 ano 12  -  n.23  -   jan./jun. 2014 

por Daniel Perdigão

Daniel Perdigão
Cobrador/trocador de ônibus: função em extinção

Verdade: trabalhamos mais que Lionel Messi e ganhamos menos. Já discutimos, em artigo publicado nesta revista há um ano, sobre as razões que determinam salários. Vimos que o talento e o tipo de atividade exercido pelo trabalhador são dois dos fatores que influenciam o valor numérico de seus rendimentos. Vimos que a titulação acadêmica também tem seu papel, e é este papel que buscaremos explorar aqui. Afinal, se não temos o talento de Messi, tampouco atuamos atendendo a milhões de pessoas, precisamos buscar melhorar nossa qualificação e nossos salários na atividade que já exercemos.

Em Economia, denomina-se capital humano a acumulação de investimentos em pessoas, da qual a forma mais importante é a instrução. Dentro deste contexto, iniciamos um tipo de sociedade que, ao menos em teoria, busca universalizar o acesso à educação. Historicamente, nem sempre foi assim. A instituição escolar era rara ou inexistente, e, quando presente, servia apenas a uma elite. A crescente exigência de conhecimento e técnica para o desenvolvimento econômico e social acabou por expandir a escola. Saberes que não eram considerados escolares, como a ciência, passaram a sê-lo. Outro aspecto importante está associado ao salário daqueles que frequentam a escola em relação ao daqueles que não frequentam. O primeiro, em média, é superior ao segundo, sendo que, quanto maior a duração média dos estudos, maior é a renda média. Isto, de certa forma, justifica o investimento de tempo e de dinheiro na instrução.

Um fato que vem sendo observado por alguns economistas é quanto ao crescimento destas diferenças. A hiperespecialização de certos trabalhadores os torna imprescindíveis e, portanto, mais valorizados. Por outro lado, cada vez mais postos de trabalhos que não exigem qualificação vem sendo extintos, o que gera excesso de mão-de-obra, logo, excesso de oferta e, portanto, queda nos salários. Em países desenvolvidos, o fenômeno é ainda mais perceptível. A importação de produtos produzidos por trabalhadores pouco instruídos, de países onde essa mão-de-obra é muito barata, bem como a imigração, legal ou ilegal, gera um aumento ainda maior da oferta de mão-de-obra não qualificada e uma redução das vagas para este tipo de trabalho, o que provoca um abismo ainda mais acentuado entre as rendas dos diversos tipos de trabalhadores nesses países.

Examinemos, agora, o que se passa na instituição de ensino, ou seja, na escola, na universidade, no instituto técnico etc., a qual seguiremos chamando, genericamente, de escola. Na teoria do capital humano, a escola serve para preservar os valores e a cultura da nossa sociedade. Ou seja, serve para formar o cidadão. Há, no entanto, quem questione a necessidade de uma instituição como a escola, com a sua forma de atuar, com a sua carga horária, a sua estrutura de funcionamento, a sua forma de trabalho, para realizar o papel da formação do cidadão. De fato, há outros ambientes em que a disseminação de nossa cultura e nossos valores também ocorre; às vezes, com mais eficiência e objetividade que na escola.

Outro papel da escola, obviamente, é o da qualificação técnica. É o lugar privilegiado para apresentar aos alunos conhecimentos de linguagem, matemática, ciências, tecnologias, bem como desenvolver nesses alunos as competências para o uso eficiente desses conhecimentos. Há, até mesmo, um espaço acadêmico dedicado a integrar a educação com o desenvolvimento de novos conhecimentos: a universidade.

Acerca deste outro papel, também há aqueles que entendem que a escola não é necessária. Para estes, livros, vídeos e outros materiais didáticos podem ser a base de uma educação autoinstrutiva, autônoma, individualizada, de efeitos práticos tão bons ou ainda melhores do que aqueles obtidos nas tradicionais instituições escolares. Especialmente no que tange à educação superior, a defesa destes materiais vem ganhando força nos últimos tempos, com a formação, o crescimento e a tendência de universalização da comunicação individualizada a distância, por meio de redes de computadores. Pensa-se que se ganha mais educando milhares de pessoas com um único professor excelente, por meio de vídeos, por exemplo, que obrigando tais pessoas a se dividir em pequenos grupos locais, em diversas universidades, estudando com professores medianos.

A defesa da autoinstrução e o questionamento do papel da escola neste sentido, no entanto, não é recente. Charles William Eliot foi reitor da Universidade Harvard no fim do século 19, e é a ele que se atribui a existência de Harvard como o que é hoje: uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Acreditando no poder de cada indivíduo atingir a instrução, ele incentivou uma mudança de uma pedagogia baseada em aulas expositivas para outra baseada em seminários e palestras, reflexões individuais e trabalhos em grupo. Os alunos também eram submetidos a contínuo teste, o qual permitia a cada um conhecer com mais precisão o seu avanço pessoal em relação ao conhecimento esperado.

Mas há outra teoria instrucional, ainda mais radical, que podemos chamar de teoria da credencial ou teoria da distinção. Para aqueles que acreditam nesta teoria, a instrução escolar não passa de uma forma custosa, em termos de tempo e de dinheiro, de obter um diferencial intelectual. Em outras palavras, é como se fosse uma forma de comprar um atestado de inteligência ou um atestado de talento ou competência profissional. De fato, por exemplo, é sabido que ter estudado em certas instituições de altíssimo prestígio, seja em nível regional, nacional ou mundial, indica para a sociedade que aquela pessoa tem um diferencial acadêmico, o qual pode se estender indiretamente a outras áreas. Ou seja, é uma forma de mostrar-se, implicitamente, apto a assumir cargos mais importantes, merecedor de maiores salários, ou detentor de uma consciência humanística mais ampla.

Para os economistas, a teoria da distinção é semelhante à teoria da sinalização publicitária. Esta explica por que a maioria dos anúncios não contém qualquer informação. A própria existência dos anúncios já mostra a disposição da empresa em gastar dinheiro para ocupar aquele espaço publicitário, o que, implicitamente, indica a grandeza, a qualidade e a confiabilidade de seus produtos e serviços.

É sabido que a teoria da distinção, se for verdadeira (e é extremamente provável que seja), não atua sozinha. Ou seja, de fato, mais tempo na escola aumenta o capital humano. É o que conclui um estudo norte-americano de 1991, intitulado “Does compulsory school attendance affect schooling and earnings?”, ou, em uma tradução, “A frequência escolar obrigatória afeta o nível de escolaridade e de rendimentos?”, que compara alunos de acordo com o trimestre de nascimento e, portanto, com a idade mínima em que devem permanecer na escola. Alunos nascidos no primeiro trimestre completam antes a idade mínima para deixar a escola, portanto, estudam menos. De fato, estes alunos são os que têm menores desempenhos escolares e menores salários nos Estados Unidos, na faixa de idade e época pesquisados. Entretanto, é preciso verificar se a frequência compulsória à escola não cria fatos negativos correlacionados, como a impossibilidade de os alunos obterem rendas e salários no período em que estão estudando, ou o prejuízo, aos bons alunos, pela manutenção obrigatória, na escola, de alunos que não querem estudar.

Repensar as formas pelas quais podemos aumentar o capital humano, portanto, é essencial. É possível que estejamos gastando dinheiro demais para obtermos resultados de menos. E é possível que estejamos dando importância demais para um diploma, quando o que realmente vale é o conhecimento, o saber, enfim, o capital humano. Disso depende nosso futuro, como indivíduo e como sociedade.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito
Glauco Lini Perpétuo
Silvana Gaiba de França

Jornalista responsável
Daniel Perdigão Nass (MTb/SP 37654)

Imprenta
Brasília, DF, Brasil

ISSN 2446-4759