definindo ciência, tecnologia e inovação
Uma abordagem sintética sobre três conceitos-chave da contemporaneidade

 ano 12  -  n.24  -   jul./dez. 2014 

por Daniel Perdigão

Daniel Perdigão
San Diego, na Califórnia, Estados Unidos: mais CT&I, mais desenvolvimento

É muito comum abreviarmos a denominação da área de trabalho dos cientistas e pesquisadores como C&T (ciência e tecnologia), ou, mais recentemente, CT&I (ciência, tecnologia e inovação). Mas o que queremos dizer exatamente com essa expressão? Para definirmos adequadamente o significado de CT&I, é útil convencionar os sentidos das expressões ciência, tecnologia e inovação separadamente. É o que faremos inicialmente. Depois, abordaremos significados e outros aspectos relacionados à sigla.

Ciência
Uma das acepções aceitas pelo dicionário Houaiss da Língua Portuguesa para a palavra ciência é a de “corpo de conhecimentos sistematizados que, adquiridos via observação, identificação, pesquisa e explicação de determinadas categorias de fenômenos e fatos, são formulados metódica e racionalmente”.

De fato, entre os dez significados mencionados pelo referido dicionário, este é o que mais se alinha com o sentido comumente aceito para o C da sigla CT&I. Isto porque o trecho mencionado enfatiza o caráter teórico da ciência, em oposição à tecnologia.

A ciência também se opõe ao chamado senso comum, conjunto de conhecimentos que forma nossa sociedade e pouco se altera de geração a geração. Os saberes do senso comum têm como principal característica a subjetividade. Um conhecimento é subjetivo quando se manifesta de formas diferentes para pessoas ou grupos diferentes. Ao contrário do senso comum, a ciência é objetiva, buscando sempre a regularidade e a universalidade.

Tecnologia
Segundo o dicionário multimídia Michaelis da Língua Portuguesa, tecnologia é a “aplicação dos conhecimentos científicos à produção em geral”.

Podemos, então, dizer que a ciência está para a teoria, assim como a tecnologia está para a prática. Um trecho de artigo do filósofo italiano Umberto Eco pode nos ajudar na fixação deste conceito:

“Os meios de comunicação de massa costumam criticar a ciência, responsabilizando-a pelo orgulho diabólico com que a humanidade caminha para a sua possível destruição. No entanto, ao fazer isso, eles evidentemente confundem ciência com tecnologia. A ciência não é responsável pelas armas atômicas, pelo buraco na camada de ozônio, pelo aquecimento global e assim por diante: quando nada, a ciência é ainda aquele ramo do conhecimento capaz de nos advertir dos riscos que corremos quando, mesmo aplicando os seus princípios, confiamos em tecnologias inconsequentes”.

Inovação
A palavra inovação se refere a “aquilo que é novo, novidade” ou à “ação de inovar”, segundo o Dicionário Houaiss. No entanto, a inovação em C&T é algo relativo. Em outras palavras, a inovação científica tem duas facetas distintas e complementares. Para percebermos isso, vale citar o físico e filósofo da ciência Thomas Kuhn e seu trabalho “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Kuhn percebeu que as ciências não evoluem ou progridem, ao contrário do que pregava a corrente positivista. Na verdade, as elaborações científicas são descontínuas. Kuhn identificou dois períodos distintos pelos quais passam as ciências: os períodos de ciência “normal”, nos quais o conhecimento efetivamente cresce e se acumula; e os períodos de revolução, nos quais não se observa acúmulo de conhecimento imediato. Cada um dos períodos de ciência “normal” subtende um paradigma, ou seja, um conjunto padrão de métodos, leis, teorias e tecnologias associadas. Os períodos de revolução, chamados rupturas epistemológicas pelo filósofo Gaston Bachelard, são períodos de transição entre um paradigma e outro. Embora aí não haja acúmulo de conhecimento, a mudança de paradigma pode ser a única forma para a ciência seguir evoluindo.

Se considerarmos o modelo kuhniano de desenvolvimento das ciências (e o mesmo pode ser aplicado às tecnologias), a inovação também pode ser de dois tipos, cada um associado a um período científico: a inovação que concorda com o paradigma vigente e, portanto, é prontamente aceita; ou a inovação que se opõe ou discorda do paradigma vigente e, neste caso, embora contribua para a ruptura epistemológica, não serve, no curto e médio prazos, para o acúmulo de conhecimentos.

A CT&I, afinal
Desde o fim da Guerra Fria, uma nova dinâmica mundial vem se desenhando. As tendências indicam que está ocorrendo um processo de globalização nunca visto anteriormente: expansão do setor de serviços; redução da importância das fronteiras nacionais; ampliação exponencial do tráfego mundial de informações e conhecimento; concentração de certas atividades mundiais em clusters (grupos), concentrados em um pequeno número de países, regiões ou até mesmo cidades; reafirmação do fundamentalismo e das culturas locais; aumento do ritmo de destruição do ambiente, mas também da preocupação com a sua sustentabilidade.

Nesse contexto, a ciência, tecnologia e inovação (CT&I) é, em conjunto, fundamental para o desenvolvimento social e humano, por permitir o uso do talento, do conhecimento e da capacidade de criação na elevação do bem-estar, da qualidade de vida e na solução de problemas locais, nacionais e mundiais de praticamente todas as áreas.

A base da CT&I é o conhecimento. Para Peter Drucker, identifica-se, na História, uma “Revolução da Produtividade”, seja pela Revolução Industrial ou pela especialização do trabalho, usada, por exemplo, por Henry Ford na montagem de veículos. Essa revolução seria o resultado da aplicação do conhecimento ao trabalho. Atualmente, no entanto, outra revolução estaria em curso: a “Revolução do Conhecimento”, como resultado da aplicação do conhecimento ao conhecimento.

Ainda que discordemos da ideia de Peter Drucker, é fato que o conhecimento ganha importância e valor no mundo contemporâneo. As diferenças nas possibilidades de se gerar riqueza entre os países já não se explicam apenas pela abundância de recursos naturais, mas especialmente pela acumulação de capital humano e social, que, ainda que não seja palpável ou concreto, permite dinamizar o potencial inovador das sociedades.

Este potencial está constituído, entre outras coisas, por investimentos aplicados à produção, à circulação e ao uso do conhecimento, ou seja, por investimentos em formação de capital humano de alto nível, em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e em infraestruturas de informação e coordenação dos sistemas de inovação, sempre com base em regras econômicas, institucionais e sociais favoráveis.

O economista peruano Francisco Sagasti notou que, embora esta nova ordem seja global, ela não é integrada: mantêm-se fraturas entre grupos diferentes, sejam eles grupos de países, de regiões ou de classes sociais. Ou seja, cresce a diferença econômica, social e cultural entre grupos diferentes. Isto se deve à irregularidade dos investimentos a que nos referimos há pouco e à falta de um regime econômico e institucional estável.

O desenvolvimento científico e tecnológico está entre as principais causas da emergência desta nova ordem global, ainda que esse desenvolvimento tenha sido e continue sendo orientado e moldado por fatores políticos, econômicos, sociais e culturais.

As associações diretas entre capacitação científica, desenvolvimento tecnológico e crescimento econômico levam ao aprofundamento das fraturas globais, visto que os custos de sustentação de políticas eficazes de CT&I são cada vez maiores, e os países em desenvolvimento têm outras demandas, principalmente de caráter social, que os impedem de se mover rapidamente às fronteiras do conhecimento. Cortar os investimentos sociais, que sustentam o bem-estar do presente, ou os investimentos em CT&I, que pavimentam o caminho para um futuro melhor? Trata-se de uma questão que o Brasil precisa seguir discutindo, especialmente em tempos de crise.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
Daniel Perdigão Nass
Michelle Zampieri Ipolito
Glauco Lini Perpétuo
Silvana Gaiba de França

Jornalista responsável
Daniel Perdigão Nass (MTb/SP 37654)

Imprenta
Brasília, DF, Brasil

ISSN 2446-4759