muito mais que agulhadas
A acupuntura é exemplo de terapia complementar que mostra resultados

 ano 13  -  n.26  -   jul./dez. 2015 

por Amanda Cindy da Silva e Daniel Perdigão

sxc.hu
Boneco com acupontos: a superfície se liga ao interior do corpo

Você está doente: olhos lagrimejando, dor de cabeça, nariz escorrendo, garganta inflamada. O jeito é se consultar com um especialista, mesmo que você já saiba: vai me receitar uns comprimidos ou me mandar para o hospital. Qual seria a sua surpresa se ele viesse com incenso, agulhas, chá verde, falando de pontos de pressão, que você está fora do equilíbrio, sem harmonia e, por isso, está doente? Delírio? Nada disso: é acupuntura.

Atualmente, a saúde é trabalhada com base em dois modelos diferentes: o modelo biomédico e o modelo alternativo. A medicina baseada em evidências é a experiência prática do profissional de saúde, aliada à evidência científica, de modo a contribuir com o que é melhor para a assistência ao paciente. Já o método alternativo compreende as chamadas terapias complementares ou terapias holísticas, que são métodos que analisam a pessoa de uma forma mais ampla, nas dimensões físicas, emocionais, psicológicas e sociais para fundamentar o diagnóstico e o tratamento individualizado.

Poucas delas têm evidências científicas, mas, muitas vezes, porque poucos cientistas se interessam por estudar e pesquisar o efeito real desse modelo alternativo de medicina. Mas você pode perguntar: essas terapias funcionam? Em muitos casos, sim. é o que relatam os terapeutas e os usuários. é a sabedoria popular, testada ao longo de séculos, retomando seu espaço.

Dentre essas terapias e métodos milenares, destaca-se a acupuntura. Sim, são várias técnicas que se incluem no conjunto da medicina complementar, mas, por que a acupuntura se destaca? O uso das agulhas no tratamento de pacientes se mostra efetivo não somente entre pacientes optantes por terapias alternativas, mas também é uma das terapias mais pesquisadas pela ciência e vem sendo respaldada em aspectos, especialmente os relacionados à dor. Em outras palavras: para a acupuntura, já há evidências científicas de que a acupuntura é um tratamento recomendado para diversos pacientes. Tudo isso levou a Organização Mundial de Saúde a listar enfermidades que podem ser tratadas de forma complementar por meio dessa técnica.

A acupuntura é uma técnica enquadrada no campo da medicina tradicional chinesa. Há registros confiáveis de que seja utilizada há mais de dois milênios. Os alicerces da acupuntura contemporânea foram estabelecidos durante a dinastia Ming, entre os séculos 14 e 17. A introdução da acupuntura no Ocidente está relacionada à atividade da Companhia das índias Ocidentais, ao longo do século 17. Alguns aspectos místicos da acupuntura foram parcialmente abandonados no Ocidente, especialmente ao longo dos séculos 19 e 20, como as crenças em energia espiritual e a influência de ciclos lunares e solares.

Terapias complementares como a acupuntura funcionam de forma bem diferente daquela a que estamos acostumados. Quer ver? Imagine que a acupuntura é um remédio tradicional, que vem numa caixinha. Primeira surpresa: como já falamos, ela observa o sujeito de forma integral, seus aspectos físicos, emocionais e psíquicos, aliás, como toda terapia complementar. Portanto, a avaliação na acupuntura não se limita ao sintoma.

Você não se contenta e abre a caixinha, buscando a bula desse remédio, para saber qual a dose. Mais uma surpresa: sua dose é o quanto você precisar. é isso mesmo: não há padrão. Ela atende as demandas que cada pessoa tem. No remédio tradicional, independentemente do tipo, origem e intensidade da sua dor, a recomendação é pouco flexível: tome tantas gotas se for um adulto. Já o acupunturista, ao realizar a sua avaliação, vai procurar a causa real da dor, buscando atender à sua demanda específica, afinal, cada sujeito, cada dor, é diferente. é como dizem: não generalize o sentir; cada um sente da sua maneira.

O objetivo básico da ação de acupuntura não é o de tratar a doença, mas a pessoa. Analisam-se os pontos de referência na superfície do corpo, relacionados com determinadas áreas do seu interior. Assim, as agulhas provocam estímulos na pele, que se refletem ou agem no corpo. Os pontos de referência, ou acupontos, são a chave da acupuntura. Se, nos primórdios, eram testados e validados de forma mística ou religiosa, passaram a ser identificados de forma empírica e, mais recentemente, combinando-se com os conhecimentos da ciência e da medicina tradicional, baseada em evidências. Isso tudo contribuiu para que essa prática tivesse ampliado o seu respaldo científico.

Já na visão tradicional da acupuntura, as doenças são causadas por fatores externos ou internos relacionados com o indivíduo. Impedem o funcionamento adequado de tao (equilíbrio), zang-fu (órgãos e vísceras) e a circulação de qi (energia vital) e de xue (sangue). Também afetam jing luo (canais e colaterais do corpo onde estão localizados os pontos de acupuntura). Os zang-fu descritos pela acupuntura possuem nomes idênticos aos científicos. Entretanto, o conceito clássico chinês extrapola a visão anatômica e fisiológica, oferecendo a esses órgãos e vísceras funções, relações e associações particulares da medicina tradicional chinesa, indo além da ciência e da medicina baseada em evidências.

Mesmo diante desses dilemas entre ciência e medicina complementar, encontramos um ponto de convergência entre as duas: ambas buscam o melhor para os pacientes. E nisso, diversas técnicas da medicina alternativa têm muito a oferecer, especialmente quando combinadas da forma certa e tratadas como aliadas da medicina tradicional. Portanto, ambas podem e devem se juntar, de forma a trazer o melhor resultado ao paciente: alívio e saúde.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
Daniel Perdigão-Nass
Michelle Zampieri Ipolito
Glauco Lini Perpétuo

Jornalista responsável
Daniel Perdigão-Nass (MTE/SP 37654)

Imprenta
Brasília, DF, Brasil

ISSN 2446-4759