raios, relâmpagos, descargas elétricas
Fenômeno meteorológico frequente no Brasil merece atenção

 ano 15  -  n.30  -   jul./dez. 2017 

por Daniel Perdigão

sxc.hu
Relâmpago: perigo que risca o céu

Na maior parte do Brasil, as chuvas se concentram entre o fim de um ano e o começo do seguinte. E é muito comum que toda essa água seja acompanhada de uma tempestade de raios. Raios são descargas elétricas das nuvens para elas mesmas ou para o solo. O período entre novembro e fevereiro concentra quase 90% dos raios que ocorrem em nosso território ao longo de 12 meses. Aliás, o Brasil é considerado o país que mais observa relâmpagos no mundo. Por essa razão, e pelos riscos ligados aos raios, é de grande importância que nós, brasileiros, conheçamos mais sobre esse fenômeno meteorológico.

Embora haja tantos raios por aqui, é preciso levar em conta que a superfície do país é muito grande. Mais do que isso: somos, de longe, o país com a maior área na região intertropical do planeta – exatamente a faixa mais sujeita a raios. Logo, o título de país onde mais ocorrem raios já era esperado. O que importa, então, é sabermos sobre a densidade de raios, ou seja, quantos raios ocorrem, em média, em uma determinada região de área constante. Pois, ainda assim, o Brasil se mostra um dos países líderes das descargas elétricas.

Segundo os últimos dados disponíveis ao público, entre os Estados brasileiros, o Tocantins lidera a densidade de incidência de raios, especialmente em uma faixa que vai do oeste de Palmas à tríplice divisa com Mato Grosso e Pará. Aliás, se considerarmos que houve o registro de 84 mortes por raios no Tocantins entre 2000 e 2014, estimamos a chance de morrer atingido por raio nesse Estado em cerca de uma em 20 mil. É muito. Para ter probabilidade equivalente de acertar os seis números da Mega-Sena seria preciso apostar, em valores atuais, quase 10 mil reais. Em São Paulo, Estado com população 30 vezes maior que a do Tocantins, o número de mortes por raios no período foi 288, ou seja, somente pouco mais de 3 vezes maior.

Mas há outras regiões especialmente suscetíveis a raios: no Amazonas, uma ampla área a oeste de Manaus e outra no sudeste do Estado, na divisa com o Pará; no Pará, grande parte das regiões sul e sudeste do Estado, além de uma pequena área a oeste de Belém, às margens do rio Amazonas; o extremo leste do Acre; finalmente, na divisa entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, uma área próxima do Parque Nacional de Itatiaia. O município campeão na incidência de raios, segundo os dados mais recentes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), é Santa Maria das Barreiras, no extremo sudeste do Pará, divisa com o Tocantins: média de quase 45 raios caindo em cada quilômetro quadrado por ano. Dentre as capitais estaduais, a campeã é Rio Branco, no Acre, com a metade dessa média: 22 raios/km² · ano.

Para o brasileiro que quer fugir de áreas em que raios são comuns, basta ir à região Nordeste: à exceção da divisa do Nordeste com o Tocantins e uma pequena faixa que se estende do centro do Maranhão ao centro do Piauí, a região toda é muito pouco suscetível a raios. Sergipe é tido como o Estado que menos sofre raios no Brasil. Aracaju, por exemplo, tem uma densidade de raios que é um centésimo da registrada em Santa Maria das Barreiras. Além disso, é notável que os raios não sejam raros apenas no sertão: mesmo no litoral, que é mais chuvoso, a incidência relativa de relâmpagos é muito pequena.

A tecnologia e a ciência que trata dos raios vêm se desenvolvendo grandemente. E isso é muito importante especialmente no caso brasileiro, por estarmos tão sujeitos a raios. Por exemplo, por volta de 2000, aqui no Brasil, foi gerado o primeiro relâmpago artificial do hemisfério Sul para fins científicos. Há, ainda, diversos grupos de pesquisa nas universidades e em institutos de pesquisa brasileiros voltados especialmente para o estudo desse fenômeno meteorológico.

Existem fontes que apontam que, quando uma pessoa é atingida por um raio, sua chance de morrer é de 30%. Mas há registros de pessoas que vivem em áreas muito suscetíveis a raios, sendo atingidas pelas descargas elétricas mais de uma vez, e que sobreviveram. Roy Cleveland Sullivan (1912-1983) é uma delas. Teria sido atingido por descargas por sete vezes, sobrevivendo a todas elas – o registro está no livro dos recordes. Ele morreu depois, devido a outra causa: um ferimento por arma de fogo.

Mas, se não temos a mesma sorte do senhor Sullivan, como devemos nos proteger dos raios? A regra geral é: evitando o chamado “poder das pontas”. Cargas elétricas acabam se acumulando nas extremidades de um objeto. Se esse objeto é alto, com ponta voltada para o céu, a chance de a descarga elétrica ocorrer justamente entre ele e a nuvem é muito maior. Assim, é preferível ficar deitado ou, ao menos, agachado do que ficar em pé. Da mesma forma, se não conseguir abrigo em uma edificação, é melhor evitar ficar sob árvores altas e isoladas – ali, você pode estar mais protegido da água, mas estará mais vulnerável aos raios. Opção melhor, acredite, é ficar no descampado ou, se estiver em um bosque, mais perto de árvores baixas e próximas umas das outras.

O interior dos carros também é uma ótima opção, desde que você não encoste na lataria e mantenha as janelas fechadas. Não podendo entrar neles, mantenha-se afastado. Motocicletas e bicicletas, da mesma forma, devem ser evitadas a todo custo nessas situações: registros de mortes de condutores desses veículos por raios são desproporcionalmente altos. Cavaleiros devem abrigar a si e também a seus animais. Também devem ser interrompidos de imediato, ao primeiro sinal de raios, os banhos ao ar livre, especialmente os de imersão. Dentre estes, principalmente o banho de mar. A água salgada é excelente condutora de eletricidade, o que faz com que o efeito de descargas elétricas possa ser sentido por distâncias relativamente grandes.

Os para-raios funcionam exatamente pelo princípio do “poder das pontas”. São objetos especialmente construídos para atrair para si as descargas elétricas, pois ficam em posições altas e são pontiagudos. Além disso, possuem uma ligação condutora com a terra, feita por um fio suficientemente grosso e protegido, por onde passam as cargas elétricas. Com isso, o edifício onde se encontra o para-raios ganha alguma proteção.

Há, no entanto, estudos para desenvolvimento de novos sistemas de proteção contra descargas elétricas. São chamados sistemas de transferência de cargas. Funcionariam de forma oposta à dos para-raios. Se estes últimos atraem para si os raios, os sistemas de transferência de cargas buscariam descarregar continuamente o edifício, tornando menos provável que o mesmo fosse alvo preferencial da descarga elétrica.

É preciso ressaltar, no entanto, que as pessoas não estão completamente protegidas dos raios dentro de suas casas. Além de os raios poderem cair sobre construções sem a proteção de para-raios, as casas têm diversos materiais condutores em sua constituição, como fios e tubulações, por exemplo. Estar próximo a eles ou, pior, em contato com eles durante a tempestade de raios representa um grande aumento do risco de morte em caso de incidência da descarga elétrica no imóvel.

O Inpe registrou que, entre 2000 e 2014, 17% das mortes por raios ocorreram com pessoas abrigadas em imóveis. De acordo com a mesma fonte, trata-se de proporção muito superior à média registrada em países desenvolvidos, em torno de 3%. Em outras palavras, a proporção de mortes de pessoas refugiadas em edificações por incidência de descargas elétricas atmosféricas no Brasil é considerada muito alta. A lição é a seguinte: embora estar abrigado represente uma proteção, essa proteção não é total. Além disso, os mesmos cuidados que se toma na rua, devem ser tomados sob abrigo.

Saber mais sobre a natureza dos raios e sobre a forma como se apresentam no Brasil pode contribuir não somente para evitar a ocorrência de um evento indesejado envolvendo descargas elétricas, mas também para um melhor entendimento dos fenômenos elétricos em geral.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
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Jornalista responsável
Daniel Perdigão-Nass (MTPS 37654/SP)

Imprenta
Brasília, DF, Brasil

ISSN 2446-4759