o uso ditatorial do futebol
O futebol pode legitimar ditaduras, mas isso nem sempre dá certo

 ano 22  -  n.44  -   jul./dez. 2024 

por Larissa Perdigão

YouTube/Reprodução
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O futebol vai além do esporte e das paixões. Ele ajuda a construir identidades, em áreas como economia e política. Não por outra razão, o futebol foi usado por ditadores para buscar legitimar ou reforçar os seus regimes autoritários. Neste texto, vamos passear por três casos de relação entre futebol e ditaduras: o fascismo italiano, o regime franquista espanhol e o Zaire, atual República Democrática do Congo.

Durante as décadas de 1920 e 1930, o regime fascista da Itália, sob a liderança de Benito Mussolini, adotou o futebol como uma ferramenta de promoção nacionalista. Na época, o futebol estava se consolidando como um esporte de massa no país. O nome pelo qual o futebol é conhecido na Itália até hoje é calcio, em referência ao calcio storico fiorentino, um esporte medieval de Florença, como tentativa do regime de transformar o futebol em um símbolo de identidade nacional.

A ascensão do futebol foi instrumentalizada pelo fascismo, especialmente após a adoção da Carta di Viareggio em 1926. A Itália, que tinha muitos jogadores estrangeiros, proibiu a atuação deles. A seleção nacional, a Squadra Azzurra, tornou-se um veículo para exibir a força e a unidade do regime, culminando na conquista das Copas do Mundo de 1934 e 1938, e do ouro nas Olimpíadas de Berlim de 1936. No entanto, para isto, o regime fascista adotou jogadores estrangeiros. Eram sul-americanos, especialmente argentinos, brasileiros e uruguaios, reconhecidos como cidadãos italianos através do jus sanguinis, ou seja, italianos por sua ascendência. Esses filhos de emigrantes foram essenciais para a formação e para o sucesso da seleção italiana.

Apesar de o futebol não ser um interesse central de Mussolini, ele entendeu o poder simbólico que as vitórias internacionais poderiam ter para fortalecer a imagem do fascismo no exterior. Assim, o futebol italiano, com a participação de jogadores sul-americanos, tornou-se um símbolo externo da modernidade e do sucesso do regime fascista, embora sem gerar uma verdadeira adesão popular ao fascismo dentro do país.

Já na Espanha, a relação do futebol com o regime de Francisco Franco, vigente entre as décadas de 1930 e 1970, foi marcada por uma série de intervenções que visavam consolidar o poder ditatorial e apagar as identidades regionais, como a basca, a catalã e a galega. Franco, como Mussolini, também não era fã de futebol, mas reconhecia o seu poder. De partida, Franco impôs a alteração dos nomes dos clubes, como o do Barcelona, que teve que adotar uma versão castelhana do nome e substituir a bandeira catalã por uma espanhola em seu escudo, em 1941.

Além disso, Franco parece ter favorecido o Real Madrid, buscando utilizar o clube da capital como um símbolo da unidade espanhola sob sua liderança. O regime financiou a construção do estádio do clube e, supostamente, utilizou métodos como coações a árbitros e influências em transferências de jogadores para garantir seu sucesso. Essas ações geraram uma dinâmica desigual no futebol espanhol, com o Real Madrid obtendo grande sucesso nas décadas de 1940 e 1950, ao passo que clubes como o Barcelona, que representavam resistência ao regime, enfrentavam dificuldades dentro e fora dos campos.

Apesar das intervenções diretas de Franco em prol do clube da capital, a relação entre o regime e o futebol não pode ser vista apenas através do desempenho esportivo. A resistência do Barcelona ao franquismo, por exemplo, manifestou-se de outras formas, como em sua identidade e nas ações de seus torcedores. As dificuldades dos demais clubes no campo refletiam uma combinação de fatores, incluindo crises financeiras e o impacto das mudanças políticas e sociais da época. Importa é que o futebol espanhol durante o franquismo foi não apenas uma arena de disputa esportiva desigual, mas também um campo de batalha simbólica, de resistência, entre o regime e as identidades regionais.

Por fim, no Zaire, o futebol foi usado como uma ferramenta de controle político e de propaganda. Mobutu Sese Seko, que assumiu o poder após um golpe de Estado em 1965, via o esporte como uma extensão de seu autoritarismo, buscando consolidar o regime através do orgulho nacional. O futebol foi instrumentalizado para criar uma imagem de unidade e sucesso. O regime investiu na equipe, trazendo de volta jogadores que atuavam na Europa, e obteve sucesso ao vencer a Copa Africana de Nações de 1968 e de 1974, além de se classificar para a Copa do Mundo de 1974.

No entanto, o autoritarismo de Mobutu, com o regime cada vez mais corrupto e opressor, começou a afetar negativamente o desempenho e a moral da seleção. Em 1974, durante a Copa do Mundo, os jogadores do Zaire enfrentaram uma crise interna, agravada pela falta de pagamento das premiações pela conquista da Copa Africana. Essa tensão se refletiu nos resultados negativos da equipe, incluindo a humilhante derrota de 9x0 para a Iugoslávia. Mobutu, então, ameaçou os jogadores com punições severas, o que culminou em um episódio insólito: o zagueiro Mwepu Ilunga chutou a bola para longe durante uma cobrança de falta do Brasil, o que gerou especulações de que ele estava demonstrando sua insatisfação com o regime.

O futebol no Zaire, sob o regime de Mobutu, serviu mais como uma vitrine do poder ditatorial do que como um meio de expressão para os atletas. Embora a seleção tenha alcançado notoriedade em algumas competições, os jogadores eram vistos como marionetes de um regime corrupto, agindo não por amor à pátria, mas pelo dinheiro e pela pressão do regime. A ideia do panafricanista Kwame Nkrumah de usar o futebol para criar um sentimento de orgulho nacional se revelou falha quando associada ao autoritarismo. O futebol, em vez de unificar a nação, refletiu as divisões e as tensões de um país governado pela opressão.

Portanto, é possível perceber que regimes autoritários que precisam ou que desejam validação internacional podem usar o futebol como forma de se impor para além de suas fronteiras. Porém, os fatos podem se desenrolar de forma não planejada. De fato, por mais severo ou poderoso que seja, nenhum regime é capaz de controlar a sociedade civil ou os resultados esportivos completamente. O futebol segue sendo, também na política, uma caixinha de surpresas.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

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ISSN 2446-4759