paulo freire: a transformação pela educação
O educador brasileiro sempre teve lado: o dos oprimidos

 ano 23  -  n.45  -   jan./jun. 2025 

por Larissa Perdigão

Centro de Divulgação Científica e Cultural/USP São Carlos/YouTube
Paulo Freire em novembro de 1994 no Centro de Divulgação Científica e Cultural da USP

Paulo Reglus Neves Freire foi um dos mais influentes educadores brasileiros e uma das maiores referências internacionais no campo da educação. Sua obra, centrada na ideia de uma pedagogia crítica e libertadora, revolucionou a forma como pensamos o ensino e a aprendizagem. Sua proposta olhava para a conscientização, a igualdade e a liberdade. É preciso conhecermos a história e o legado de Paulo Freire para honrarmos a existência deste fenomenal pensador.

Paulo Freire nasceu no Recife em 1921. Ainda que de família de classe média, ele não somente ficou sensibilizado por observar as grandes desigualdades sociais e econômicas de sua região, mas por ter vivenciado a fome e a privação durante a crise econômica que se abateu sobre o Brasil em fins da década de 1920 e início da década de 1930. Ao aproximá-lo ainda mais da realidade de milhões de brasileiros marginalizados e sem acesso à educação de qualidade, esta experiência de carestia o conduziu para as questões de classe, de acesso à educação e de luta pela justiça social, direcionando seu pensamento para enxergar a educação como instrumento privilegiado de transformação social.

Ainda que fosse advogado de formação, tendo estudado na prestigiosa Faculdade de Direito do Recife, hoje parte da Universidade Federal de Pernambuco, Freire mal exerceu a advocacia, tendo começado a sua carreira já como professor de português. Ainda que tenha assumido, posteriormente, cargos executivos na área de educação, fosse no governo pernambucano ou na universidade pública local, ele não se esqueceu da experiência de sala de aula: ali, percebeu as limitações do modelo tradicional de ensino, que focava na memorização de conteúdos sem conexão com a realidade dos estudantes.

Em 1961, Paulo Freire realizou as primeiras experiências de alfabetização popular em Pernambuco. Dois anos depois, Paulo Freire coordenou um projeto de alfabetização de adultos em Angicos, uma pequena cidade do interior do estado do Rio Grande do Norte. O projeto foi um marco na história da educação brasileira: em apenas 40 dias, 300 trabalhadores rurais analfabetos aprenderam a ler e a escrever utilizando a metodologia desenvolvida por Freire, que priorizava o uso da linguagem cotidiana dos alunos e a contextualização dos conteúdos.

Essa experiência de Angicos comprovou a eficácia de um método de ensino democrático, acessível e transformador, baseado no respeito às experiências e à cultura dos educandos. O governo do presidente João Goulart não ficou alheio a esse sucesso: buscou multiplicar essas primeiras experiências inserindo o método aplicado por Paulo Freire em um Plano Nacional de Alfabetização, que previa a formação massiva de educadores e a implantação de 20 mil núcleos ou “círculos de cultura” pelo país.

No ano seguinte, porém, ocorreu o golpe a derrubar o governo de Goulart, o que resultou em perseguição e censura a Paulo Freire, já que elementos das forças conservadoras que se apossaram do controle do país tacharam o seu método de “comunista”. Ele foi mantido preso, sem qualquer mandado ou cumprimento de garantias legais, por 72 dias, entre junho e setembro de 1964. Ao ser libertado, pediu asilo na Embaixada da Bolívia. Naquele país, permaneceu pouco tempo, mudando-se para o Chile.

Sua obra-prima foi o livro Pedagogia do Oprimido, concluído em 1968, enquanto estava no país andino. Essa obra é considerada um dos pilares do pensamento pedagógico crítico. Nela, Freire propõe um modelo de educação que não seja mais vertical, em que o professor é o único detentor de um saber a ser transferido, mas sim uma educação horizontal, em que alunos e professores compartilham o processo de ensino-aprendizagem de forma dialogada, com saberes construídos coletivamente.

Freire introduziu o conceito de “educação bancária”, no qual estudantes são tratados como recipientes vazios, nos quais o professor “deposita” conhecimento. Para ele, esse modelo alienante e desumanizador era responsável por perpetuar as desigualdades sociais, pois negava a capacidade crítica dos educandos e sua agência na construção do conhecimento. Em contraposição a esse modelo, Freire propôs a “educação problematizadora”, que busca transformar aprendizes em sujeitos ativos do processo de aprendizagem. Ele acreditava que a educação deveria ser um espaço de diálogo, onde os alunos pudessem refletir sobre suas realidades.

Para Freire, a verdadeira educação só se concretiza quando há uma relação de respeito mútuo entre educador e educando, com ambos aprendendo e ensinando ao mesmo tempo. Ele definia a educação como um ato de liberdade, em oposição à educação como controle e subordinação. Essa abordagem visava a emancipação dos indivíduos, para que, ao tomarem consciência da sua realidade e de sua condição social, pudessem atuar como agentes de mudança.

Entende-se que a conscientização dos educandos implica desenvolver um pensamento crítico que, a depender das condições reais de ação, permita a eles questionar as estruturas de poder e, eventualmente, transformar a sociedade. Neste ponto, mora a oposição ao pensamento de Paulo Freire: não interessa aos favorecidos pela estrutura social vigente perder os seus privilégios; se a educação nos moldes freireanos é minimamente capaz de conscientizar os oprimidos da nossa sociedade sobre a sua condição de explorados, de vítimas, tanto melhor à elite mesquinha aniquilar até a memória de Paulo Freire.

A partir de 1969, com a publicação de Pedagogia do Oprimido em diversos idiomas, Paulo Freire rodou o mundo. Foi professor visitante da prestigiosa Universidade Harvard, depois viveu por tempos na Suíça, em prol de uma educação verdadeiramente cristã, na qual acreditava, e a qual o regime ditatorial ao qual o Brasil encontrava-se submetido repudiava. Um dos locais em que seu método pôde se fazer mais presente, sob a ação de orientandos seus, é a Guiné-Bissau. Independentes em 1975 graças à queda da ditadura portuguesa, os bissau-guineenses demandavam uma educação que valorizasse o saber popular, necessidade brilhantemente atendida pelos métodos freireanos.

Ainda que tivesse sido anistiado em 1979, Paulo Freire retornou ao Brasil apenas no ano seguinte. Seguiu defendendo suas ideias em novas obras, palestras e, também, atuações políticas. Em 1989, com a ascensão de Luiza Erundina à Prefeitura de São Paulo, aceitou o cargo de secretário municipal de educação, onde permaneceu cerca de um ano e meio, dando lugar a outro de seus orientandos: o educador Mario Sergio Cortella. Durante os quatro anos do governo Erundina, Freire e Cortella trabalharam com uma equipe muito unida em prol do ideal de uma educação pública acessível, formadora, transformadora e, portanto, de alta qualidade, em uma gestão que serve de paradigma até hoje.

Paulo Freire faleceu em 1997, mas seu legado permanece vivo. Sua obra, mais do que um conjunto de técnicas pedagógicas, é um convite à reflexão sobre o papel da educação na construção de uma sociedade mais justa, solidária, democrática e humana. Sua abordagem, que coloca o educando no centro do processo de aprendizagem ao buscar conscientizá-lo para, talvez, libertá-lo e empoderá-lo, ainda é uma das mais estudadas e aplicadas no mundo. Seu pensamento permanece como um guia para todos aqueles que acreditam que a educação é, de fato, um instrumento de liberdade. Seu nome segue sendo um farol para aqueles que buscam, através do conhecimento, um mundo mais livre, mais digno e mais humano. Vivamos Paulo Freire.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
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Larissa Perdigão (Registro 37654/SP)

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ISSN 2446-4759