nós fazemos os preços
Lei da oferta e da procura influencia mais que governos ou ganância

 ano 23  -  n.46  -   jul./dez. 2025 

por Larissa Perdigão

PxHere/CC0
Os preços dos biscoitos na padaria variam pelo estoque e pela procura

Você já se perguntou por que o preço de certos produtos sobe, enquanto outros caem ao mesmo tempo? Por que certas frutas são tão baratas em uma época do ano, mas tão caras em outros períodos? Por que os preços dos ovos, ou mesmo da gasolina, flutuam tanto? Na maioria dos casos, essas questões do dia a dia são explicadas por uma das ideias mais fundamentais das Ciências Econômicas: a lei da oferta e da procura, também conhecida como lei da oferta e da demanda. Esse princípio não fica restrito aos cursos de economia ou às reuniões de negócios: ele influencia a forma como os preços são definidos no mundo real e, com isso, toda a dinâmica do mercado.

Basicamente, a lei da oferta e da procura explica como o preço de um produto ou de um serviço é determinado pela relação entre a disponibilidade dele e o quanto as pessoas o desejam. A oferta refere-se à quantidade de algo disponibilizado para venda, enquanto a procura (ou a demanda) se refere à quantidade desse algo que os consumidores desejam comprar. Se há uma grande procura ou demanda por algo, mas uma oferta limitada, o preço tende a subir. Por outro lado, se há uma grande oferta de alguma coisa, mas poucas pessoas interessadas em pagar por isso, o preço tende a cair.

Imagine que você tenha uma pequena padaria e venda biscoitos. Se muitas pessoas entrarem querendo biscoitos e você tiver apenas alguns pacotes restantes, pode aumentar o preço, pois ainda assim haverá clientes suficientes para comprá-los e o estoque até durará mais. Mas se você fizer muito mais biscoitos do que as pessoas querem comprar, provavelmente terá de diminuir o preço, para incentivar mais pessoas a levá-los antes que se estraguem. Essa ideia básica funciona da mesma maneira em uma escala muito maior: em toda a indústria, no mercado de trabalho, nas cidades, nas bolsas de valores e de mercadorias, enfim, em escala global.

O que torna a lei da oferta e da procura especialmente importante é o fato de que ela ajuda a equilibrar as decisões dos consumidores e dos produtores ou ofertantes. Quando os preços de alguma coisa sobem, algumas pessoas comprarão menos, enquanto outras procurarão alternativas, o que reduzirá a procura ou demanda por essa coisa. Por outro lado, alguns produtores ou vendedores dessa coisa podem responder a esse aumento de lucro aumentando a oferta, para surfar na onda da valorização daquele ativo. Assim, a redução da procura em simultâneo ao aumento da oferta equilibrarão, novamente, os preços em algum momento futuro.

Da mesma forma: quando os preços de algo caem, mais pessoas comprarão, outras comprarão mais, em um aumento da procura que tende a equilibrar o excesso de oferta. Por outro lado, com os preços baixos, vendedores tenderão a vender menos, e produtores podem decidir reduzir a produção, ambos pela baixa nos lucros. No futuro, esses movimentos reequilibram o mercado daquele produto ou daquele serviço. Em outras palavras, essas mudanças ajudam o mercado a alcançar um tipo de equilíbrio, onde a quantidade ofertada corresponde à quantidade demandada. O mercado é dinâmico e ajusta seus preços naturalmente. Quando nova igualdade de quantidades ofertada e procurada é alcançada, podemos olhar para o preço: os economistas chamam esse ponto de igualdade de preço de equilíbrio. É o preço em que coincidem, na média, o que os vendedores desejam receber e o que os compradores estão dispostos a pagar.

É claro que as situações da vida real não se resumem a isso. São muitos os fatores que podem influenciar tanto a oferta quanto a procura. Por exemplo, um evento climático extremo pode danificar plantações e destruir estoques, reduzindo a oferta, o que faz subir os preços. Outro exemplo é quando um produto entra rapidamente na moda. Sua procura aumenta repentinamente, mas sua oferta leva um tempo para acompanhar esse aumento, fazendo com que os preços subam em um primeiro momento. O fenômeno também ocorre com profissões no mercado de trabalho: profissionais raros, com formação incomum e necessária, ou em vagas rejeitadas pela maioria, podem exigir salários mais altos, enquanto profissionais de qualificações reduzidas ou banais acabam tendo de aceitar ordenados mais baixos.

A lei da oferta e da procura também ajuda a explicar as mudanças sazonais de preços. Quando determinada fruta está na estação, a oferta é alta e os preços caem. Fora de estação, elas são importadas de longe ou cultivadas em estufas, o que leva a custos e preços mais altos. Da mesma forma, os preços de hospedagens e outros serviços costumam subir nas férias e feriados, pois mais pessoas estão viajando, aumentando a procura, enquanto os preços despencam fora da temporada, com proprietários de imóveis e ofertantes de serviços turísticos ávidos por receber ao menos algum dinheiro dos poucos turistas.

Na economia digital de hoje, a oferta e a procura seguem desempenhando um papel fundamental. O que muda é a maneira como interagem os interesses: agora, isso é muito mais rápido, dinâmico e até controlado por grandes corporações. Aplicativos de transporte e hospedagem, por exemplo, usam dados em tempo real para aplicar preços de pico, elevadíssimos, quando muitas pessoas precisam de um transporte, mas poucos motoristas estão disponíveis, ou quando querem ficar em uma mesma cidade em função de algum evento que ocorrerá ali.

Mesmo empresas de setores mais tradicionais foram impactadas pela tecnologia. Os preços das passagens aéreas variam com base no dia da semana, estação do ano e há quem diga, até mesmo, que variem em função do seu histórico de navegação. Os varejistas online ajustam os preços dinamicamente com base nos padrões de demanda, níveis de estoque e concorrência. Nesses sistemas, algoritmos ajudam a monitorar a oferta e a procura constantemente, ajustando os preços quase instantaneamente.

A lei da oferta e da procura não explica tudo, porém. Os mercados reais são influenciados por muitas outras forças. Os governos podem impor controles de preços, subsídios ou impostos que alteram como a oferta e a procura interagem. Um monopólio ou um oligopólio podem restringir a oferta para manter os preços altos. O medo, a especulação e as emoções podem impulsionar a procura para cima ou para baixo de maneiras inesperadas, como vemos nos mercados financeiros. Em tempos de crise, como durante uma pandemia ou um desastre natural, as cadeias de suprimentos podem se romper, e a baixa repentina na oferta e as compras por pânico podem fazer os preços dispararem.

Ainda assim, entender a ideia básica da lei da oferta e da procura nos ajuda a compreender o que envolve muitas situações cotidianas. Não, dificilmente o problema é um comerciante ganancioso ou uma ação deliberada de um governo. Quando vemos os preços subindo ou caindo, muitas vezes, podemos atribuir a razão às mudanças na oferta, na procura, ou em ambas. Seja comprando mantimentos, reservando uma viagem ou acompanhando notícias econômicas, a lei da oferta e da procura nos dá uma lente útil para entender como o mundo funciona. Ela é uma ferramenta poderosa que molda como vivemos, compramos, trabalhamos e tomamos decisões. Ela influencia o que as empresas produzem, o que podemos pagar e como os mercados respondem a mudanças. Ao entender o equilíbrio entre oferta e procura, conseguimos uma visão mais clara de por que as coisas custam o que custam — e como podemos reagir quando os preços mudam.


Cultura Secular

Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.

Comissão editorial
Larissa Perdigão
Michelle Zampieri Ipolito
Glauco Lini Perpétuo

Jornalista responsável
Larissa Perdigão (Registro 37654/SP)

Imprenta
Brasília, DF, Brasil

ISSN 2446-4759