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o furtivo autoritarismo do século XXI
O autoritarismo de hoje é sub-reptício, mas igualmente nocivo à liberdade e à economia
ano 24 - n.48 - jul./dez. 2026
por Larissa Perdigão
| Ted Eytan/Flickr/4 fev.2017 |
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| Protesto na capital dos EUA ante medidas autoritárias do presidente que acabara de assumir |
Que imagens lhe vêm à cabeça quando você ouve falar de autoritarismo? Ditadores em uniformes militares? Manifestações opressivas? Controle absoluto sobre as massas? Pensamos, possivelmente, em Stálin, em Mao ou em Pinochet, que impunham sua vontade por meio do medo, da repressão violenta e da censura. Contudo, à medida que nosso século avança, a face do autoritarismo se transforma. Os autocratas modernos raramente são figuras espalhafatosas. Porém, mantêm um controle semelhante sobre a população, agora de forma mais sutil e insidiosa.
Não vemos mais ditadores berrando ordens: temos discursos supostamente sofisticados sobre segurança nacional e valores tradicionais, disponibilizados às massas na internet. Ou seja, hoje, recorre-se à manipulação da opinião pública e ao controle das informações. Em vez de banir a internet, como regimes do passado fizeram, os autocratas atuais inundam o mundo digital com desinformação, tornando a verdade mera versão de fatos em um mar indistinguível de mentiras.
Este novo autoritarismo é mais resiliente, globalizado e, talvez, mais perigoso, pois corrói os fundamentos da liberdade e da estabilidade financeira de maneira invisível. Ele mina as instituições de dentro para fora, destruindo lentamente a confiança pública e tornando a liberdade uma ilusão. Em vez de confiscar diretamente empresas, utilizam o aparato legal e econômico para sufocar qualquer ameaça ao seu poder.
No passado, os autocratas chegavam ao poder por meio de golpes militares ou revoluções violentas. Hoje, porém, os ditadores raramente tomam o poder pela força bruta. Em vez disso, eles frequentemente são eleitos democraticamente e, em seguida, utilizam as ferramentas da própria democracia para destruí-la. Este fenômeno é conhecido como “retrocesso democrático”, e envolve o uso de táticas legais e políticas para minar a independência das instituições. Os primeiros passos não são dados contra o povo, mas contra os sistemas que garantem a liberdade. Autocratas modernos capturam os tribunais, enchem os órgãos anticorrupção com gente “dos seus” e criam leis que restringem a mídia e a oposição política.
Em vez de um golpe abrupto, o retrocesso democrático é constituído por uma série de ações graduais que, pouco a pouco, sufocam a sociedade civil. A estratégia é a do “salame”: as liberdades são cortadas uma fatia de cada vez. Uma nova lei que limita parcialmente a liberdade de imprensa aqui, uma outra que exige registro de “agentes estrangeiros” ali... Quando vistas isoladamente, essas medidas parecem pouco ofensivas; porém, juntas, sob órgãos devidamente dominados pelo autocrata, criam um ambiente de controle e medo. Além disso, os autocratas não se limitam a suas fronteiras nacionais; eles expandem sua repressão para além delas, utilizando mecanismos internacionais como a inscrição do nome de opositores como procurados na Interpol, além do uso de softwares espiões, para perseguir exilados e seus familiares.
Afinal, o objetivo fundamental de qualquer regime autoritário é, e sempre foi, o monopólio do poder. O que mudou drasticamente ao longo do tempo foram as estratégias para alcançar esse monopólio. Antes, a repressão direta e violenta; hoje, a manipulação e o controle da informação. Há economistas a dizer que estamos vendo uma ascensão de uma “autocracia informacional”, onde o poder é mantido não pelo medo explícito, mas pela criação de uma percepção fabricada de competência e legitimidade. Cria-se, a partir de um trabalho metódico, publicitário, de convencimento não informado, um consenso artificial em favor dos líderes autoritários.
Mas a manipulação da informação vai além das campanhas publicitárias. A internet, que um dia foi vista como uma ferramenta de empoderamento e liberdade, tornou-se um dos principais instrumentos de controle. Governos autoritários usam tecnologias de vigilância para monitorar os cidadãos e prever suas ações antes mesmo que elas aconteçam. Inteligência artificial é usada para analisar mídias sociais e identificar potenciais dissidentes, enquanto ferramentas como o bloqueio da internet externa aplicadas nos gigantes países asiáticos criam uma bolha digital que permite aos governos monitorar todas as interações online. Além disso, há uma crescente pressão para que empresas de tecnologia armazenem dados localmente, para dar aos regimes um acesso sem precedentes à privacidade de seus cidadãos.
O autoritarismo é frequentemente defendido por seus adeptos como uma solução para a estabilidade econômica. Supostamente, a centralização do poder permitiria a um país manter a ordem, o que, por sua vez, garantiria o crescimento econômico. Contudo, a realidade é muito mais sombria. O autoritarismo, longe de ser uma solução econômica, atua como um imposto sobre a população. Os regimes autoritários são caracterizados por um sistema de clientelismo, onde o sucesso econômico depende mais da lealdade política do que da inovação ou da competição justa. Isso leva à formação de uma oligarquia, onde recursos são concentrados nas mãos de um pequeno círculo de empresários “leais”, ainda que pouco produtivos, enquanto as pequenas e competentes empresas, comprometidas com a qualidade e não com o regime, são marginalizadas.
Além disso, a economia autoritária é marcada pela fuga de capitais e de cérebros. Os cidadãos mais ricos e os investidores estrangeiros transferem seus recursos para democracias mais estáveis, deixando a economia local em declínio. A falta de liberdade e de um senso de justiça, dados como condições básicas de um Estado de Direito, também empurram os cidadãos mais educados e qualificados a buscar oportunidades em outros países, resultando na perda de capital humano.
Além do impacto econômico, o autoritarismo da atualidade traz custos psicológicos e sociais profundos. A desinformação e a manipulação das narrativas tornam a verdade um bem cada vez mais raro e difícil de se alcançar. Com isso, surge um ambiente de cinismo e relativismo, onde a verdade parece estar sempre em disputa e a confiança no sistema diminui. Esse fenômeno não só enfraquece a resistência à tirania, mas também cria um clima de “impotência aprendida”, onde as pessoas deixam de acreditar que algo melhor é possível.
A erosão da privacidade é outro custo humano significativo. Na era digital, a perda de privacidade não é apenas uma questão de segurança, mas de liberdade intelectual. O simples fato de saber que suas conversas são monitoradas ou que suas ações online estão sendo vigiadas pode gerar uma autocensura que sufoca a criatividade e a liberdade de pensamento. Este “estado policial internalizado” é muitas vezes mais eficaz do que qualquer outro tipo de repressão física, pois ele corrói a capacidade dos indivíduos de se expressarem livremente.
Em suma, o autoritarismo do século XXI se infiltra nas instituições, nos mercados e até nas consciências individuais, tornando-se uma força invisível e difícil de combater. A vigilância é mandatória. Exigir transparência, valorizar a imprensa independente e de qualidade, usar o voto contra o autoritarismo são passos iniciais, mas cruciais. Devemos, também, proteger as instituições que garantem a independência, como os tribunais e os bancos centrais, pois elas representam a última linha de defesa contra a tirania. Só o fortalecimento das instituições democráticas e o respeito aos direitos humanos pode garantir a liberdade e a prosperidade esperadas de uma civilização humana, de todos para todos.
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Cultura Secular
Revista de divulgação científica e cultural do grupo de pesquisa “Investigações Transdisciplinares em Educação para a Ciência, Saúde e Ambiente”.
Comissão editorial
Larissa Perdigão
Michelle Zampieri Ipolito
Glauco Lini Perpétuo
Jornalista responsável
Larissa Perdigão (Registro 37654/SP)
Imprenta
Brasília, DF, Brasil
ISSN 2446-4759
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